MIL INVAND/A
VOL. IN 4 2021
e EXDEDICN LAUDELINAS
VOLUME 41. NÚMERO 4.20214 ISSN 2675-6803 SELO EDITORRAIE- MIRADA RECIFE - PERNAMBUCO
EDITORA CHEFE CAPA
Taciana Oliveira Águeda Amaral - Fotografia de “Desde que o Samba é Samba”
CONSELHO EDITORIAL
Argentina Castro T|USTRAÇ ÕES
Liliana Ripardo Sofia Nabuco Taciana Oliveira
BESICNERREDILTORIA Rebeca Gadelha
o E 1* e " >
INDICE
APRESENTAÇÃO
RESÍDUOS Assionara Souza
A LUTA DESSAS MULHERES NEGRAS QUE VIVEM
EM MIM
Thara Wells Corrêa
[AS AUSÊNCIAS ECOAM EM MEUS OLHOS] Carmelita Zuzart
POR UMA GRAÇA ALCANÇADA Cinthia Kriemler
SUGESTÃO DE LEITURA: PRESOS QUE MENSTRUAM Taranda Barbosa
TRINTA ANOS DEPOIS Mariana Tanelli
OS POROS NOS OSSOS Nara Vidal
11
14
23
25
7
33
35
BALA DE MEL Silvana Guimarães
AUTO DE NATAL Adriane Garcia
Manuella Bezerra de Melo Fernanda Limão
AMOR CONJUGADO Juliana Berlim
FELINA Chris Hermann
Déh Zabelê
BURACO Michaela v. Schmaedel
MAPA-MUNDI Daia Moura
COLETIVA BARRÓSAS
EU QUERIA ESCREVER SOBRE
A GUERRA INTERNA Lais Eutália
37
41
43
45
47
50
51
53
24
62
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Lúcia Viana 66 Bruna Sonast 67
TRANSFOBIA RECREATIVA:
A CONSTRUÇÃO DO LUGAR DAS TRAVESTIS NO IMAGINÁRIO DA SOCIEDADE BRASILEIRA ATRAVÉS DO HUMOR 70 Elisha Silva de Jesus
SAUDADE 81 Yonne Miller
ENSAIO FOTOGRÁFICO DESLOCAMENTOS IMAGINÁRIOS, 2020 MONTEVIDÉU, URUGUAI 85 Camila Fontenele
ENSAIO FOTOGRÁFICO
MORRO E NÃO POSSO VELAR MEU CORPO 98 Julia Pupim
PARTICIPARAM DESTA EDIÇÃO 110
APRESENTARAU
Há um ano nascia Laudelinas, uma publicação desenvolvida para o fomento das vozes femininas na sua multiplicidade de atuação artística e social. Nesta edição contemplamos mais uma vez a produção de artigos, poemas, resenhas, contos, crônicas, ilustrações e ensaios fotográficos elaborados por mulheres cis e trans de todas as regiões do Brasil.
Há um ano enfrentamos bem mais que a letalidade de um vírus e as consequências econômicas do isolamento social: somos uma nação destituída do bom senso e de empatia, governada por milicianos, abandonada pela omissão e cumplicidade partidária de algumas instituições. Assistimos ataques às minorias, a exclusão e o esfacelamento de políticas sociais e ambientais. Apesar da atitude negacionista de muitos, sobrevivemos ao desempenho vil de um governo genocida que regozija diante do caos. Se a democracia se evapora em convicções narcisistas e pentecostais, nós seguimos aos trancos e barrancos, defendendo nossa existência e as inúmeras tentativas de silenciamento e exclusão:
Sim, eu trago o fogo,
o outro,
não aquele que te apraz. Ele queima sim,
é chama voraz
que derrete o bivo de teu pincel incendiando até ás cinzas O desejo-desenho que fazes de mim.
Sim, eu trago o fogo,
o outro,
aquele que me faz,
e que molda a dura pena de minha escrita.
é este o fogo,
o meu, o que me arde
e cunha a minha face
na letra desenho
do auto-retrato meu.
Este é o nosso território, nosso corpo, a caixa de memórias, o encontro da palavra e da imagem na construção de identidades políticas e de resistência. Em tempos de “achismos”, intolerância, terra plana e pandemia, viver exige coragem e afeto. Amar é revolucionário e a criação artística um ato necessário para vislumbrar a esperança.
Avante, queridas!
Recife, 08 de março de 2021
Taciana Oliveira
! Do fogo que em mim arde, Conceição Evaristo
“Talvez, o caminho seja entrar e sair de casulos para pousar silenciosamente de asas abertas ”*
? Lisiane Forte em Liames (Premius Editora, 2018)
RESÍDUOS
Assionara Souza
Minha mãe morreu aos vinte e oito anos acometida de uma mudez aguda. Um dos piores silêncios que já baixou sobre a minha família. Desses em que a palavra “fica presa dentro e se multiplica agilmente. Assim como um pensamento descritivo minucioso. Eu via isso quando ela penteava o cabelo, aquele olho vítreo pro espelho, era a doença. Eu. Meu olho via o olho dela. É um sinal que a doença dá. Principalmente nesses momentos de início. É uma doencinha muito danada, essa. Afeta muito as mulheres da minha família. E não é loucura. Louca, mesmo, teve uma minha tia avó chamada Joana. Mas Joana falava muito. Os homens diziam que era ela a desvairada. Aceitou bem o diagnóstico. Tomou veneno e, antes de morrer, urinou-se na sala grande da casa vomitando impropérios. O demônio da palavra a habitava. Minha mãe começou com os silêncios dela, eu tinha oito anos. Os fios de cabelo que ficavam no pente, tristeza infinita em cada gesto. Mínimos. Ínfimos. Olhava. As mãos de dedos longos juntando cada sobra de existência. Os fios de cabelo quando se morre ainda permanecem. A prova inorgânica. Minha mãe tinha o cabelo longo e os olhos tristes e distantes. Era já a doença. Olho pensante. Um dia ela me deu um caderno com capa de flores. Ali, decidi. O que a doença deixava escapar, eu juntava. Teve uma manhã, me arrumando pra escola, ela disse: “estudo é uma coisa muito importante pra pessoa”. Eu sorri transbordante da figurinha para a coleção. Escrevi. Letras minhas. O remédio bom da palavra saindo dela. Cura. Minha mãe não falava nada que não significasse. Meu pai era diferente. “Cuidado com o carro”; “Olhe de um lado e outro”. Meu pai sempre foi um homem matemático; pensava muito em ficar rico. Má temática. Esquecia-se dos outros nessa ideia infame. E mesmo porque matemática desse modo cru, mulher desfaz. Minha vó, que também quando decidiu silenciar enganou todo mundo, matou-se no devagar do secreto, entendia muito bem de contar luas e adivinhar ocultos mistérios. Dela anotei: “a língua é o chicote do corpo”. Talvez pensasse em tia Joana, a desvairada. Porque mulher gosta muito da palavra. E quando falta,
a doença chega. Sorrateira. Sedutora. Eu sei que há muitas maneiras de se pegar essa doença. Ainda mais que as mulheres da minha família têm muita facilidade para o silêncio. É um descuido, e pronto! Começam a parar olho demais numa coisa só, boca cerrada, minimalismos. A última filha que a minha mãe teve já veio com a doença de nascença. A primeira palavra que falou foi “não”. Minha avó chamou minha mãe ao lado. Só se olharam. Porque também, por mais que se tenha já essa coisa latente, esse silêncio aguardante, às vezes é outra palavra que um diz pra aquela pessoa e já finca raiz a mudez absurda. A palavra que não diz. Não adiantava nada meu pai falar. Trazer as coisas da rua, do mundo, grugulejar notícias. O silêncio da doença não aceita forma alguma palavra sem peso. Eu sei. Pois aquele dia mesmo. Eu ali, tanta espera o coração. Ouvi a voz. Aguardei. Atardescia sinfonicamente. Não era? Lembras? Eu e tu. Tantas outras vezes. Me ouves, agora? Pois aquela tarde tão grande e pronta pra sustentar a exata palavra. Por que não a disseste? É impossível às mulheres da minha família suportar a falta da palavra. Veio com uma força estúpida: o sintoma. Espalhou-se liquidamente o silêncio rascante dentro de mim. Foi por esse tempo, meus olhos desistiram de ti; meus braços desistiram de ti. Meu corpo todo adoeceu da ausência de teu gesto. Talvez aqui dentro há muito tempo venha eu tentando entender o início desse meu esquecimento de vontade. São de uma inutilidade tremenda as novidades que me trazes do mundo. A estúpida palavra pronunciada fisicamente. As mulheres de minha família sofrem do mal da palavra. Não há repouso em tua alma às coisas que eu digo. Tua palavra não me atinge. Minha mãe morreu aos vinte e oito anos de idade acometida de um silêncio absurdo. Somos, tu e eu, inimigos muito íntimos. Meu olho no espelho vê.
Assionara Souza. Escritora, nascida em Caicó/RN, em 14 de outubro de 1969. Formada em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, foi pesquisadora da obra de Osman Lins (1924-1978). Autora dos volumes de contos Cecília não é um cachimbo (2005), Amanhã. Com sorvete! (2010), Os hábitos e os monges (2011), Na rua: a caminho do circo (2014) — contemplado com a Bolsa Petrobras, 2014; e Alquimista na chuva (poesia, 2017). Sua obra tem sido publicada no México pela editora Calygramma. Participou do coletivo Escritoras Suicidas. Idealizou e coordenou o projeto Translações: literatura em trânsito [antologia de autores paranaenses: www.literaturaemtransito.com]. Estreou na dramaturgia escrevendo a peça Das mulheres de antes (2016), para a Inominável Companhia de Teatro. Morreu em 21 de maio de 2018, em Curitiba/PR.
A
LUTA DESSAS
MEET ERES NEGRAS QUE Ed ME IM AIM
Thara Wells Corrêa
Era uma vez...
No início dos anos 60, uma família de mulheres negras em busca de novas oportunidades, desembarcou na cidade de Sorocaba.
Srº L, a matriarca, era uma mulher negra de origem humilde nascida em 1911, filha de pais escravos. Orgulhava-se de ser umbandista e benzedeira, além de profunda conhecedora do poder de cura das ervas. Trazia sempre consigo um pano branquíssimo na sacola, o qual tinha a função de manter imaculadas as suas ervas e seu terço (de um metro de comprimento), que ela mesma havia plantado, colhido as contas e furado cuidadosamente uma a uma. Das folhas enrolava seu cigarro de palha, e cada vez que soltava à fumaça, refletia sobre a vida e suas armadilhas.
Sr” L. havia ficado viúva. Seu marido, Sr. S, era um homem negro de pele clara e de olhos verdes, parecia um ser encantado de tão alto e magro. Quando abria o sorriso, branco como as teclas de um piano, amolecia
qualquer coração, inclusive o dela. Era mulherengo e muito encantador. Benzedeiro famoso e profundo conhecedor dos feitiços mais secretos, dos quais às vezes usava para despistar os maridos traídos e enfurecidos. Sr” L. contava que ele virava um toco de árvore no meio do mato quando queria fugir das surras, depois se gabava do feito rindo muito até se engasgar. Trabalhava como cortador de eucalipto, e num dia, numa peça do destino, um pé de eucalipto caiu em cima da sua barriga. Agonizou por horas, sozinho no meio do mato, até ser encontrado pelo compadre João segurando as suas tripas. Sr” L., agora viúva, sozinha e com cinco filhas ainda pequenas, viu que era hora de recomeçar. Sabia que estava vulnerável e temia pelas suas meninas. Contava que criou 18 filhos. Quando se casou como Sr.S., ele era viúvo e pai de onze filhos pequenos. Da união com ele, tiveram mais sete. Com exceção das cinco meninas, os restantes já estavam todos criados, cada um seguindo seu rumo na vida, dizia.
O recomeço não foi fácil. Vendeu tudo o que tinha de mais valioso onde morava. Por aqui, trabalhou incansavelmente como lavadeira e engomadeira até conseguir comprar um terreninho. Continuava religiosamente de luto. Sr. S. ainda era presente na sua vida e no seu coração. Era devota de Nossa Senhora Aparecida. Fregiientava todas as igrejas que descobria. Rezava o terço todos os dias às seis horas da tarde e se levantava assim que o galo cantava para tomar seu banho de bacia, no quintal, ao nascer do sol. Como uma entidade anciã, energizava-se, contemplando em oração, o milagre de um novo dia.
O Tempo passou rápido demais. As meninas tímidas e arriscas, tornaram-se lindas mulheres. Cada uma seguiu seu rumo. Srº L, controladora que só, temia que elas se “perdessem” na vida. Só sai de casa casada e de papel passado, dizia em tom áspero e com a testa franzida. A filha do meio era a mais obediente. Dona de olhos negros e brilhantes como uma jabuticaba madura, queria ser cozinheira famosa. Tinha dom de transformar poucos ingredientes em pratos sofisticadíssimos e saborosos. Só ela tinha a permissão para usar as panelas de ferro da mãe. Frequentava assiduamente o terreiro de umbanda da família. Era um doce de pessoa, diziam todos que a conheciam. Tímida, astuta e inteligente. Adorava novelas e era fã do Roberto Carlos. Vivia cantarolando as músicas dele por aí. Era feliz demais. Assim como nas novelas que acompanhava todos os dias, sonhava com seu príncipe encantado que, com um beijo apaixonado, lhe pedisse em casamento ajoelhado e lhe oferecendo flores. Sim! Sim! Eu aceito! Ensaiava. Às vezes, se via sorrindo sozinha dentro do ônibus na volta pra casa, depois de um dia pesado de trabalho.
Trabalhava desde pequena como doméstica na casa de uma família rica da cidade. Era tida como da família, obedecia à patroa sem questionar. Do patrão, um homem fino e educado, tinha vergonha até da sombra. Das filhas, era como irmã mais velha. Embalava suas bonecas quando elas estavam ausentes e “até” ganhava as roupas que não lhes serviam mais. Mesmo astuta e inteligente, não tinha a malícia das armadilhas da sociedade em que vivia.
Um dia, seu sorriso cruzou outro sorriso, assim sem querer, como nas novelas. Ele, homem branco, rico, egocêntrico, estudante de advocacia (na faculdade mais conceituada da cidade), queria ser delegado. Quantas coisas em comum. Sorriam e selavam com beijo. Os amigos dele riam e faziam piada. As irmãs e as amigas dela, as confidentes. As pedras do asfalto testemunhas dos passeios de mãos dadas, das confidências, dos desabafos, dos sonhos, do amor. Tudo seguia seu rumo como sonhado e planejado. Ele jurava que assim que se formasse e passasse no concurso para delegado, enfrentaria sua família de portugueses abastados e eles se casariam. Selava sua promessa com um beijo apaixonado.
Um dia, como prometido, ele foi conhecer o centro de Umbanda que ela tanto comentava. Era dia de “gíria de Baianos e Boiadeiros”. Ele ficou maravilhado com o que viu. Foi até tomar um passe com o baiano das Pedras, chefe do terreiro. O baiano das Pedras era a entidade que todas as pessoas, médiuns ou não, amavam. Tinha o dom da profecia. O que ele falava podia escrever porque era “batata”. Quando ela foi, percebeu que a mesma entidade, a qual ela conhecia desde menina segurava no pulso dela com o dedo indicador e com o chapéu cobrindo o rosto,
soltava a fumaça do seu charuto, calado num silêncio de matar. Tomou coragem e o interrompeu:
“ Aconteceu alguma coisa? O que o senhor ta vendo? Ai meu Deus!” Exclamou e riu de nervoso.
Numa retomada, ele ainda segurando a pulsação dela de cabeça baixa, disse:
“ Você ainda não sabe, mas seu bacuri (significado de filho na linguagem da Umbanda), já está com você. Ele trará uma mediunidade de outras vidas e vai mudar muito a sua e tudo o que tocar. Será seu fardo ou seu alívio. A decisão será só sua”. Ela congelou da cabeça aos pés. A entidade então se calou, prosseguiu com a finalização dos rituais de passe e se despediu. Eles Ficaram até o final da sessão e depois foram embora.
As palavras da entidade calaram tão fundo na sua alma que não conseguia pensar em mais nada. Ficou como se não estivesse mais ali. Tinha a certeza de que seu corpo não apresentava sinais de nada diferente, então seguiu com sua vida, seu namoro e seus sonhos. Tudo era sol na sua vida.
Após três meses, a profecia se cumpriu. Desesperou-se. Confidenciou a sua irmã mais velha, que alertou sobre a ira da Srº L. “Meu Deus, ela vai me matar!” Dizia aos prantos. Encorajada pelas suas confidentes, decidiu contar pra ele. Tinha como certo que juntos achariam a melhor maneira de enfrentar essa “dádiva de Deus”. Sabia que ele ficaria feliz. Acreditava piamente na integridade do seu namorado. Tudo vai dar certo, pensava cruzando os dedos.
Quando enfim se encontraram, o discurso já repetidamente ensaiado estava na ponta da língua. Suas mãos eram com barras de gelo e seus olhos de jabuticaba, agora eram banhados de orvalho de medo e incertezas. Ele percebera a tensão no ar, e insistente perguntou o que estava acontecendo. Ela, assim como nas cenas de novelas, disse: “Agora somos três, olhando pra baixo e colocando as mãos na barriga”. Silêncio...
Num impulso para traz, ele solta um grito: “Tá louca né?! Olha o que você está fazendo comigo”, disse.
Ela chorava demais com a reação dele. Esperava que assim como nos folhetins, ele acima de tudo, ficasse com ela. Era seu primeiro e único amor.
Ele ainda de costas pra ela, com as mãos na cabeça segurando os lisos e sedosos cabelos negros, pensava: Isso vai acabar com a minha vida!
Num rompante ele se vira, segura nas mãos tremulas dela e diz: “Vamos dar um jeito nisso. Conheço casais de amigos que já passaram por isso e resolveram. Arrumo o dinheiro para você resolver esse problema e voltamos ao que era antes”.
Num rompante, como que por instinto e mesmo sem entender ao certo o que ele proporá, levanta-se, e com toda a força que tinha, no alto dos seus Imetro 57centímetros de altura, desfere uma tapa que estrala e diz: “Nunca mais na minha vida quero olhar na sua cara! Nojento”, diz. Ao sair, se vira e promete: “Enquanto eu viver, você nunca vai por os olhos nessa criança. Siga com sua carreira que eu vou seguir minha vida. Deus e
meus orixás nunca vão me desamparar. Tenho fé”. Seguiu quase correndo.
Como era de se imaginar, Sr” L, caiu como uma forte tempestade na sua vida expulsando-a de casa e jogando todas as suas coisas na rua. Agora, ela era a vergonha da família. Era a mãe solteira do bairro. Ela chorava de soluçar. Pedia perdão à mãe, mas em vão.
No auge dos seus vinte e dois anos, sabia que tinha que continuar. Pensou por um instante em dar um jeito como seu amor, agora ex-amor prometera, mas como um sopro no ouvido, lembrou-se da profecia do Baiano das Pedras e se arrependeu imediatamente.
Procurou abrigo no emprego, e a patroa gentilmente a repreendeu. Deu um sermão daqueles de horas, mas no final, aceitou que ela morasse no “porãozinho”, na lavanderia no meio das roupas sujas, afinal ela era como “uma filha” pra eles.
Srº L, nunca mais tocou no nome dela e ordenou para que todos ali fizessem o mesmo, sendo prontamente obedecida.
Seguiram-se os meses... Ela trabalhava de segunda a segunda, quase vinte e quatro horas por dia. Não reclamava de dor, de nada. Dentro do senso comum e numa época onde não existiam exames de ultrassonografia obstétrica, as pessoas adivinhavam o sexo do bebê pelo formato da barriga da mãe. Diziam com todas as letras, é menina.
Chegou à esperada hora quando estava lavando roupas no tanque. Deu um grito de dor e foi um corre-corre danado. Para surpresa de todos e cumprindo a profecia, os médicos disseram: É um menino!
A patroa, fina e elegante, porém já na terceira idade, tinha três filhas moças. Seu sonho e do marido sempre foi ter um menino e numa conversa intima com a sua “filha adotiva”, interrompe o momento entre mãe e filho e arrisca: “Dá ele pra mim? Registro e prometo que o criarei como um rei e você poderá seguir com seu sonho de ser cozinheira famosa....poderá casar...ter outros filhos”. Pestanejou por um instante, mas olhando para a faminta criança, disse não.
“Na alma tenho impresso como tatuagem o seu cheiro de baunilha e a alegria do momento quando meus olhos conheceram os teus”.
Quando recebeu alta médica, voltou ao “pordozinho” e em poucos dias já estava de volta ao trabalho. A criança era disputada por todos os colos. Era a alegria da família.
Sr” L, sete meses depois que soube da notícia do nascimento do neto pela filha mais velha, se muniu de coragem, vencendo seu orgulho e todos os seus preconceitos, decidiu visitar a filha no emprego. Arrumou-se toda. Tirou o pote de pó-de-arroz da gaveta e se maquiou. Trançou os cabelos afros tipo 3c já brancos, finalizando sua produção com a peruca curta e lisa que ficava exibida em uma cabeça de isopor em cima da penteadeira. Afinal, era seu primeiro neto, pensava ansiosa. No encontro emocionante pediu perdão à filha e timidamente, chorou. Quando enfim carregou o neto de pele claríssima no colo, se olharam e se reconheceram. A criança era muito branca, para o espanto da avó, mas quando esta abriu o sorriso banguelo, a matriarca se rendeu aos seus encantos e se derreteu feito margarina. Chorou muito de felicidade e de arrependimento por suas
atitudes. Ordenou que, imediatamente, mãe e filho fossem embora com ela, sendo prontamente obedecida e, contrariando a patroa, que a esta altura já havia batizado a criança, assim a família unida seguiu para casa.
Os anos se seguiram e a criança já contava com seus três anos de idade e era quem dominava a todos na família, inclusive a Sr” L., que de coração gelado, agora era só felicidade. Mas, como tudo na vida não é só felicidade, os rumores da mãe solteira ainda persistiam na vizinhança e incomodavam muito a Sr? L. que decidiu arrumar um casamento para a filha solteira e um pai para dar um sobrenome ao seu neto tão amado e adorado, e assim o fez.
Num desses encontros que só o destino é capaz de explicar, a filha caçula da Sr? L. começou a namorar e o irmão mais velho do seu namorado estava solteiro.
Sr. B era um homem negro retinto, alto e bem musculoso. Viúvo recém chegado de São Paulo, era de uma educação que todos admiravam. Não tinha vícios, falava baixo e pausadamente. Perfumado e cheirando a leite de Rosas, era o partido perfeito para a filha desgarrada e para o neto que tinha na certidão de nascimento só o nome da mãe.
Casaram-se com a benção da matriarca e viveram felizes um ano e meio até a notícia da primeira gravidez. Sr. B, para o espanto de todos era alcoólatra em tratamento e sabe se lá porque, voltou a beber. O primeiro empurrão veio aos três meses de gestação. No quinto mês após uma discussão de casal, o primeiro tapa na cara. Relutou, decidiu reagir, mas por medo de prejudicar o bebê que gestava, calou-se. Confidenciou sua atual
situação aos amigos e as irmãs, contrariando ao que todos os amigos pensavam, não eram felizes. Os conselhos que recebia eram diversos. O mais conformador era: “Ruim com ele, pior sem ele”. Nasceu uma menina. As agressões continuaram de modo gradual e quase constantemente. Um ano depois, outra gravidez. No oitavo mês de gestação, após uma grave briga por conta do excesso de uso de álcool e outras drogas, um chute na barriga. Passou muito mal, quase sofreu um aborto. Se recuperou e aos nove meses, um menino saudável nasceu. A criança era a cópia perfeita do pai, porém, já muito afetado pelo vício, acusava-a sem provas de ter sido traído e o filho era de outro homem. Mas, que outro? Não existia essa possibilidade, nem de longe. A mente doente do Sr. B, produzia fatos, lugares, situações e motivos para que sua vida e a de sua família fosse um inferno total e diário.
Interminavelmente infeliz, seguia resistindo sem apoio da sua família e com a omissão da família do Sr. B., que a culpavam pela ira dele e por ter provocado cada violência sofrida, além de acusá-la de já ser uma mulher “rodada” quando ele se casou. Seguia se arrastando e tentava não sucumbir a tanta tristeza e decepção. Ancorava-se nos filhos, aconselhava-se no terreiro que sempre frequentou, ouvindo atentamente a todas as orientações dos Orixás de que tanto amava e confiava.
Já contando com três filhos, ficou grávida do caçula. A esta altura já estava morando bem longe de todos os amigos e parentes, por estratégia do marido violento e abusador para que ela não fosse influenciada a largá-lo. As violências seguiam cada vez mais graves. Era ameaçada de morte, caso decidisse se separar.
Sr. B, neste momento já assumira seu ódio pelo primogênito dela que ainda conservava sua pele clara e no meio da família de negros retintos, era a prova viva de que tinha sido abandonada pelo homem que se entregara por amor. Apanhou calada muitas vezes por isso também. Esta criança era eu
Eu já contava com meus sete anos, já estava na escola, alfabetizada e já havia alfabetizado a Sr L, que a esta altura contava com setenta e dois anos de idade. Minha mãe orgulhava-se de ter me ensinado a ler, escrever e ver as horas nos relógios analógicos aos cinco anos de idade. Lembro-me do dia em que decidi defendê-la.
Tudo começou porque eu era como um papagaio dos porquês. Estava lendo o jornal em voz alta, e quando ele chegou bêbado, se implicou com aquilo e como um animal desgovernado, partiu pra cima de mim. Lembro-me como se fosse hoje quando ela entrou na frente dele como uma leoa para me defender. Foi a primeira vez que a vi fora de si de um jeito inesquecível. Mas a força física dele era muito, mas muito superior e ela levou a pior como sempre. Quando a vi no chão tentei defendê-la, mas vomitei muito e perdi os sentidos por um estante. A partir deste dia, nunca mais o vi da mesma forma, e aos nove anos, denunciando toda a indiferença dele comigo para uma tia, ela me revelou que ele não era meu pai. Mas quem era então?! Até esse momento, eu pensava que ele era meu pai.
Minha mãe agora trabalhava como doméstica o dia todo. Decidiu trabalhar fora quando nos viu passando fome. Uma vez, quando nós estávamos chorando de fome ela, num ato de tamanho desespero deu as sobras
do pouco que tinha aos filhos mais novos e a mim se dirigiu com o olhar marejado de lágrimas e disse: “Vamos cantar que a fome vai passar”. No auge da minha maturidade infantil, entendi o recado e cantamos a música tema da novela “Selva de Pedras” que ela mais amava e sempre cantarolava: Rock and Roll Lullaby de B.J. Thomas. Cantei com ela até adormecermos.
Seu marido já consumido pelo vício, além de violento, gastava todo seu salário em bebidas. Sumia às vezes por quatro, cinco dias e quando aparecia, bêbado ainda e sem um tostão. A está altura os jornais já ensaiavam timidamente denunciar notícias sobre a violência doméstica. Na Televisão os programas femininos como a “TV Mulher” pregavam o empoderamento feminino e, fortalecida nisso, decidiu procurar ajuda.
Cansada de passar noites a fio na delegacia, cansada de ser “humilhada” pelo polícia machista quando decidia fazer o boletim de ocorrência e depois, cansada de apanhar quando chegava em casa e entregava a intimação nas mãos do agressor, decidiu buscar outros caminhos. Foi orientada a ir à procuradoria geral do estado solicitar auxilio de um advogado publico e assim, conseguir a Separação de corpos, e mais a diante, a separação total. Queria recomeçar. Ser feliz novamente.
A nomeação veio, era uma advogada. No dia e hora marcada, compareceu ao escritório com os quatro filhos. Ao chegar, começou a relatar toda a situação, e em mais uma dessas peças que só o destino sabe pregar, quando olha na mesa ao lado, fica muda e começa a soar frio. A advogada apresenta seu marido e sócio e ela ainda tremendo,
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segurando-se para não desmaiar, o reconhece de pronto. Era ele, seu amor e decepção, pai do seu primogênito e culpado de todo o seu sofrimento. Ele, casado e bem sucedido, agora exercendo a advocacia, trabalhava também como delegado. Ele conseguiu, disse a si mesma. (Quando se recompôs, se levantou com a desculpa de que estava passando mal em relatar toda a violência sofrida e que outro dia voltaria. Ele, na hora entendeu quem era ela, reconheceu seu filho e por um instante pensou em ir atrás, porém, confortável na sua vida de homem branco, decidiu não arriscar perder seus privilégios.
Alguns anos se passaram e ela nesta altura já estava separada judicialmente do seu agressor, mas seguiam morando debaixo do mesmo teto por falta de condições financeiras para consumar a separação de fato. Sr. B, agora mais velho e com os filhos já criados, ainda bebia muito e continuava violento e agressivo.
Lembro-me de quando ela começou a desistir de viver. Seus olhos negros como jabuticabas maduras já não refletiam mais o mesmo brilho e ela já se encontrava bem obesa e debilitada devido a tanta violência. Desenvolvera muitas comorbidades. Seu corpo mal conseguia caminhar.
A tristeza como um fogo avassalador, já havia tomado sua alma. Sr L e suas três irmãs já haviam falecido. Estava sozinha no mundo, lamentava. Só tinha sua irmã mais velha e seus quatros filhos, dos quais se orgulhava tanto, e arrisco a dizer que ainda se nutria, entre um suspiro e outro, das lembranças boas do seu primeiro e único amor. O primogênito nunca conheceu o pai e a pedido dela, também nunca o procurou. Dizia que eles nunca deveriam se
encontrar, pois temia o enfrentamento. Talvez, sua intuição mediúnica sempre esteve certa.
Às vezes, como num sopro de respiro, submergia da profunda depressão e sorria de algo muito engraçado que ouvia, outras fingia dormir o dia todo para não acordar para a sua triste realidade. Não cozinhava mais e se tentasse, não consiga acertar mais o ponto de nada. Com o passar dos anos, assim como uma flor sem água e sem sol, foi murchando. Não tinha esperança de mudar seu destino e violentada pela sociedade, machista e patriarcal; ignorada pela falta de políticas públicas de acolhimento e enfrentamento efetivo a violência doméstica; anulada por todo o racismo ainda presente na nossa atual sociedade; ela nos deixou há muitos anos atrás, em uma “manhã de setembro”.
Todo mundo já ouviu falar ou já conheceu alguma menina/ mulher que foi abandonada e forçada a criar um filho sozinha. A sociedade machista legitima tal atitude covarde, absolvendo o homem da sua responsabilidade, além de excluir socialmente essa “heroína”.
Assim como toda mulher negra e pobre, esta história faz parte da estatística de muitas outras que ainda nos dias atuais, são as que mais sofrem violência doméstica no Brasil. Elas são as maiores vítimas de homicídio e feminicídio. Sendo raça e o gênero fatores determinante para a legitimação, omissão e justificativa dessas violências.
A violência contra mulher é, portanto, estrutural no Brasil, e tão enraizada que se reproduz de forma automática, natural. Bem debaixo dos nossos olhos, atingindo a todos do núcleo familiar e causando traumas irreparáveis, assim como os que relatei acima.
Em tempo, não posso deixar de citar que o novo coronavírus (Covid-19) atingiu milhões de pessoas no mundo, e com ele veio à necessidade de isolamento, contribuindo para o crescimento e aumento da violência doméstica, sofrida por mulheres e crianças que passaram a conviver dia e noite com seus agressores.
Por fim, mulher denuncie a violência doméstica. Procure ajuda, não escute conselhos de submissão, nem tão pouco justifique os atos do seu agressor (a) e jamais se anule ou se culpe pelas atitudes agressivas de quem quer que você tenha escolhido como companheiro
(a).
Esse relato é sobre as mulheres negras mais incríveis que conheci, minhas tias e minha avó, Srº L e a dona dos olhos de jabuticaba mais lindos que já vi, minha mãe, dona Irene. Em memória e no coração.
Todo fim, é um recomeço. Acredite! Viva o Dia da Mulher!
Viva a liberdade de ser, pensar, agir e viver como bem entender!
Lugar de Mulher é aonde ela quiser.
Thara Wells Corrêa. Mulher transgênero. Trans ativista, militante pelos direitos humanos de pessoas trans. Graduanda em Serviço Social. Conselheira no Conselho MUnicipal dos Direitos da Mulher de Sorocaba. Promotora Legal Popular- PLP
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[AS AUSÊNCIAS ECOAM EM MEUS OLHOS!
Carmelita Zuzart
tenho sustentado
as vistas, no olho
e há, sempre
um bafo tépido
toque palpitante sussurro,
costurado no vento nas rachaduras que habitam os intervalos
e
céus,
tá tudo tão vivo beligerantemente quieto há
ausências tão mornas noites tão claras
um pulso ecoante aportando as paredes solidões escoantes [habitamos]
certa vez,
um olhar varreu a terra
na beira do mar,
engoliu o sol num mergulho e as pedras.. rolaram as linhas subindo a cortina-breu selando
a pálpebra do dia
úmido, surrado
o sol fez-se frio no fundo
e as bolhas subiram... riscando a gênese
na pele d'água
quando [por fim] regressou entre os astros
pálido, envergonhado então elas vieram
dos confins do firmamento du coin le plus éloigné estrelar os varais sustentar o próximo pulo dança vem sendo verbo
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[corriqueiro]
entre caiporas e capins durante as sombras da lua até...
em queda, desbotar
a última aquarela arar-se o primeiro café repare,
o céu alveja
[sempre]
e há
[sempre]
algo bonito, por lá então choramos
deus,
como não chorar?
p4
Carmelita Zuzart quando tinha 10 anos, mamãe me comprou um caderninho. En- tão eu me sentava no jardim e, por horas, condensava-me. Meses depois, ganhei um livro ilustrado da Cecília Meireles. Come- cei a decalcar os desenhos e transcrever os poemas em folhas de ofício e os vendia jun- to aos meus no colégio por um real. Assim paguei meus lanches por um tempo. Me chamo Carmelita Zuzart, sou Gravatense em peito e Recifense por certidão. Gradu- anda em História, perdi no tempo qualquer rastro de habilidades empreendedoras. Vez e outra ainda escrevo. Constantemente sin- to saudades daquela garota.
POR UMA GRAÇA ALCANÇADA
Cinthia Kriemler
As mesmas de sempre. As coisas que acontecem com ela. Mas agora é diferente. Ela se cansou do sempre.
Cansou de contar e recontar pratos talheres panelas garrafas bibelôs gotas de adoçante almofadas cadeiras rolos de papel higiênico latas de cerveja minutos portas se abrindo e se fechando com força tapas socos chutes cortes hematomas lágrimas gritos semanas meses anos.
Cansou de contar para os filhos as mesmas histórias sobre deus papai noel coelhinho da páscoa chapeuzinho vermelho cinderela gato de botas princesas príncipes reinos encantados meninas e meninos felizes — seja lá o que for que signifique ser feliz.
Cansou de contar para a mãe para as vizinhas para as amigas para a empregada para a professora dos filhos para as médicas (é invariavelmente feito só de mulheres o seu universo vigiado) uma versão Mulher-Maravilha de si mesma. Mas não sente remorso. Quem foi que disse que as melhores versões não são as inventadas?
Cansada, confessou ao padre a verdade. Em versão única e sem revisão. Ele lhe pediu paciência e serenidade. Paciência e serenidade. Paciência e serenidade. Repetição que ela implantou em eco na cabeça. Pediu também que ela perdoasse. Tudo. Em troca da absolvição dos próprios pecados. Que pecados, padre?, quis perguntar. Não perguntou. Achou melhor não criar argumento. Ele insistiu nos infinitivos: relevar, esquecer, perdoar. E ainda teve a coragem de falar a ela sobre o amor. Teve essa coragem.
Ela ficou ali, estática, do outro lado da treliça sebosa do confessionário abafado, esperando aquele homem autoproclamado “de Deus” dizer a palavra justiça. Ou a palavra respeito. Que nada. O que ele fez foi alinhavar a confissão com um clichê estúpido. “Até que a morte os separe, filha, lembre-se disso”. Acompanhado de uma penitência branda: um Pai-nosso e três Ave-Marias. Muito branda.
Ela contou os furinhos da treliça mais uma vez, antes de se levantar daquele lugar sufocado. Rezou a penitência
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aos pés da estátua de Nossa Senhora de Fátima, repetindo mecanicamente as palavras. Contou as velas do altar as imagens dos santos os quadrados do piso os anjos do teto. Depois, foi embora. A caminho de casa, recomeçou a contagem. Sinais de trânsito, carros vermelhos, casas brancas, placas com final cinco.
Cinco. Que número perfeito. Os cinco sentidos. As cinco pontas de um pentagrama. O número-amuleto dos romanos para proteger dos espíritos malignos — romanos espertos.
Cinco dedos segurando o revólver comprado há cinco meses por cinco mil reais. Cinco tiros à queima-roupa no homem roncando sobre a cama. Cinco pipocos (ela sempre quis dizer pipocos). Contados e recontados. Contados e recontados. Contados e recontados. Um novo eco implantado na cabeça.
Só nos Pai-nossos e nas Ave-Marias é que ela multiplicou o número perfeito por dez. 5 x 10 = 50. Rezou um rosário inteiro. Porque penitência não pode ser branda. Nem pode ser brando o agradecimento por uma graça alcançada.
Cinthia Kriemler é carioca e mora em Brasília. Autora, pela Editora Patuá, de O sêmen do rinoceronte branco (Contos, 2020); Tudo que morde pede socorro (Romance, 2019); Exercício de leitura de mulheres loucas (Poesia, 2018); Todos os abismos convidam para um mergulho (Romance, 2017) — finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018; Na escuridão não existe cor-de-rosa (Contos, 2015) — semifinalista do Prêmio Oceanos 2016; Sob os escombros (Contos, 2014); e Do todo que me cerca (Crônicas, 2012). Organizou a antologia de contos Novena para pecar em paz a convite da Editora Penalux, em 2017. Tem textos e poemas publicados em diversas antologias e em revistas literárias.
SUGESTÃO DE LEITURA
RESENHA PRESOS QUENMIBNS ERUOAMG NCBRUTAL VIDA DAS IMUERERES
e RA E AO ud COMO O
NAS
PRISÕES BRASILEIRAS
laranda barbosa
Quando pensamos em nossas referências de leituras a respeito de prisões, as primeiras que aparecem, provavelmente e nesta ordem, são: Estação Carandiru, de Dráuzio Varela, Diário de um detento: o livro, de Jocenir, Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, Vigiar e punir: nascimento da prisão, de Foucault. Todas escritas por homens. Todas sobre homens.
Na contracorrente desse rio que flui em uma única direção está a jornalista Nana Queiroz, provocando redemoinhos, ondas e sumidouros, com a obra “Presos que menstruam. A brutal vida das mulheres — tratadas como homens — nas prisões brasileiras”. O livro, publicado em 2015, inicia com um prefácio que
já parte para o enfrentamento e para a reflexão sobre o silenciamento tanto das bibliotecas quanto das produções televisivas e cinematográficas sobre as mulheres nas prisões. A crítica inicial de Nana Queiroz é extremamente válida e atual, pois escassas ainda são as obras e pesquisas que se dedicam a elas e, embora tenhamos uma vasta gama de séries cuja trama é desenvolvida em penitenciárias femininas, as produções apresentam cenários que estão longe da realidade e mulheres encarceradas aparecem, portanto, como meio de entretenimento e diversão. Logo, o que poderia ser um suporte para levar o expectador à reflexão sobre a problemática torna-se
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um instrumento a mais de objetificação feminina.
As estratégias utilizadas por Nana Queiroz para compor a obra refletem bem a invisibilização que o patriarcado tenta impor sobre a figura da mulher, pois a jornalista, em diversos presídios, fora impedida de levar gravadores ou qualquer equipamento eletrônico de registro. Entretanto, da mesma maneira que desenvolvemos artifícios para seguirmos adiante, a autora conseguiu entrevistar as detentas e construir o livro a partir dos depoimentos que foram assimilados através de fragmentos que se uniram e formaram o tecido narrativo costurado pelos fios da memória da autora. Um tecido cheio de remendos alinhavados por papéis clandestinos escondidos nos bolsos. A tessitura ganha mais corpo quando a autora retoma algumas histórias no meio do livro ou no final, como uma perspectiva de recomeço, um modo de dizer que as narrativas não acabaram ou, ainda, que a realidade daquelas mulheres permanece a mesma.
O livro-reportagem traz em seu título diversos elementos para a reflexão: o substantivo masculino “presos” formando o contraponto com o verbo “menstruam”; o adjetivo “brutal” associado a “vida”, indicando o longo tempo no qual as mulheres permanecem naquele lugar; o aposto posicionado e destacado entre hífens, chamando a
atenção e exigindo uma pausa um pouco mais longa; e o complemento que indica a dimensão da pesquisa: acontece em nosso país. O aposto diz “— tratadas como homens —? e no decorrer da leitura comprovamos a força desse trecho ao percebemos que, mesmo dentro da prisão, permanecem a preocupação com os filhos, com a família, a dupla jornada e a coragem que ferve nas veias diante do enfrentamento:
[...] ao contrário dos presos homens, as mulheres não se escondem quando a tropa de choque invade o presídio, mas xingam os policiais, jogam neles objetos e as mais corajosas chegam até a se atirar sobre eles.
— Prefiro mil vezes uma cadeia com 30 mil homens do que uma com cem mulheres — diz ela [a diretora de um dos presídios], enfatizando as palavras para que sejam levadas a sério. — Elas são muito indisciplinadas, arrogantes e não têm medo de nada. Apesar da tropa de choque ser tão agressiva com elas quanto com eles, elas não se acovardam. Acho que a mulher é mais corajosa que o homem em todos os sentidos, ela enfrenta qualquer problema, qualquer desafio, acho que está habituada a fazer isso fora da cadeia.
NANA QUEIROZ
Imagem: Divulgação
A capa é um recurso semiótico que complementa o que o leitor acabou de decifrar: apoiadas em uma barra de ferro, duas mãos exibem unhas pintadas com um esmalte azul opaco, descascando.
As situações-limite, o tratamento desumano, os crimes confessos, a mea culpa, a vulnerabilidade social, a carência afetiva, a burocracia, a lentidão da justiça, o HIV, a gravidez, o parto, o puerpério, as renúncias pessoais, a solidão, os dados, as estatísticas, a saúde física e mental, os sonhos, a padronização e a “Institucionalização das presas” são algumas das inúmeras
a
discussões que Nana Queiroz traz à
ordem do dia para que essas mulheres deixem de ser ignoradas pela sociedade e para que muitos estereótipos sejam rompidos. Nesse sentido, “Presos que menstruam?” está longe de ser uma obra panfletária ou apelativa, pois o discurso vitimista inexiste — haja vista o fato, inclusive, de que a autora consultou, após as entrevistas, para evitar pré- -julgamento ou tendência, o processo de algumas detentas e comparou com os depoimentos já recolhidos.
Por outro lado, é impossível evitar a influência do ambiente na construção das narrativas apresentadas por Nana Queiroz em formato de capítulos curtos. As descrições do cenário incluem os cinco sentidos que nos são apresentados através de cheiros, sensações, ruídos e sinestesias. As palavras da autora se misturam com as das personagens, apresentadas ora com pseudônimos ora com nomes reais (protagonistas de crimes hediondos e de grande repercussão nacional). Tal recurso, associado às variações linguísticas — a fim de marcar a pluralidade, já que a autora visitou diversos presídios pelo país — aproxima “Presos que menstruam” de um livro de contos cujo protagonismo é de mulheres em situação de cárcere.
A jornalista usa diversas técnicas narrativas, entre elas o in media res, a falsa terceira pessoa do singular e a voz narrativa híbrida. Esses recursos deixam
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Imagem: http://atribunanaweb.com.br/noticia/descubra-como-e-a-vida-das-mulheres-nas-penitenciarias-brasileiras
o leitor na dúvida entre uma ficção diabolicamente real ou uma realidade diabolicamente digna de ficção. ' Andando pelas carnes”, por exemplo, é um capítulo que nos faz lembrar bastante Muribeca, de Marcelino Freire, e nos impele a refletir sobre até que ponto a realidade e a ficção se misturam e se separam. Onde a linha tênue entre ficção e realidade é atravessada?, pois as narrativas são absurdamente reais e de realidade absurda. Ademais, Nana Queiroz deixa explícita as suas referências e influências literárias, ao apresentar um capítulo em forma de poema e ao criar títulos como:
* Amor em espaços de cólera” e “A hora da estrela de Vânia”.
“Presos que menstruam” é um livro imprescindível para que conheçamos e compreendamos realidades outras. Mães, filhas, estudantes, estrangeiras, brasiguaias, indígenas, ricas, pobres... todas nós somos passíveis de estar na mesma situação que aquelas detentas — devido a uma decisão errada, um passo mal dado, um instante de fúria, um vacilo —, habitando uma estrutura pensada ou construída para/por homens e que, quando voltada para as mulheres estava
destinada para aquelas consideradas “desajustadas”.
As inquietações afloram no fim dos capítulos e nos incomodam após cada virada de página:
— Eu, por exemplo, estava grávida. Perdi meu filho faz dez dias, sangrei feito porco e ninguém fez nada, não vi um médico. Agora, tô aqui cheia de febres. Vai ver o corpinho tá apodrecendo dentro de mim.
Atualmente as detentas são chamadas de reeducandas, uma mudança lexical interessante e até mesmo bonita, mas, com base no depoimento acima, qual a possibilidade de reeducação dessa mulher? Existe ressocialização para quem não foi socializada?
A leitura nos coloca em meio a dilemas: qual o conceito de verdade, justiça, injustiça, direito, inocência, culpa? As diferenças de gênero saltam aos olhos quando nos perguntamos: A visita íntima é um direito, mas é, e deve ser, respeitada? Independente das respostas, compreendemos que “Presos que menstruam” é um livro sem julgamentos, afinal, aquelas mulheres já foram moral e socialmente julgadas, condenadas e, várias, executadas. Obra
imensamente significativa e rica, esse livro que precisa estar ao alcance de todos e, tal qual as situações expostas, não pode ser ignorado.
Nana Queiroz rompe com o silenciamento dessas mulheres, retirando-as da invisibilidade. O estudo e a divulgação dessa obra são imprescindíveis para que a população enxergue as presidiárias enquanto seres humanos e para que mudanças sociais sejam realmente executadas a fim de tornar obsoletas as palavras de Foucault, em Vigiar e Punir, ao afirmar que:
[...] o papel da prisão é ser uma garantia sobre a pessoa e sobre seu corpo [neste caso o feminino]. A prisão assegura que temos alguém, não o pune; e, mais que claro, não ressocializa [...] O ciclo está fechado: da tortura à execução, o corpo [da mulher] produziu e reproduziu a verdade do crime.
SI
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Nana Queiroz é meio paulistana, meio brasiliense, autora de Você já é feminista: abra este livro e descubra o porquê. É bacharel em jornalismo pela USP, especialista em Relações Internacionais pela UnB e em direitos das mulheres por necessidade vital. Também é criadora do protesto *NdomereçoSerEstuprada e fundadora da revista AzMina, referência em jornalismo feminista no Brasil. Em 2017, liderou a equipe premiada com o Troféu Mulher Imprensa de Melhor Projeto Jornalístico.
Iaranda Barbosa, formada em Letras Português-Espanhol, pela
- UFPE, possui mestrado e doutorado em Teoria da Literatura
pela mesma instituição. Salomé (Selo Mirada), novela histórica é sua primeira obra ficcional longa. A autora possui contos em antologias e revistas de arte, assim como diversos artigos científicos publicados em periódicos especializados em crítica
| literária.
TRINTA ANOS DEPOIS
Mariana lanelli
A Luna, você se lembra da Luna? A gata de raça pura, olho azul celeste, filhote de gatos medalhados em concurso de beleza, a gatinha perfeita, escolhida a dedo. Você e a mãe foram buscá-la uma tarde. Era para ser sua, como numa boba fábula cor-de-rosa, não tivesse a bichana se empoleirado no ombro da mãe, já dentro do carro, se enroscando nos cabelos dela.
A mãe tentou fazer a ponte, mas não havia maneira, a gata havia feito a própria escolha. Foi então que começou dentro de casa uma tortura surda. A gata passava na sua frente, você enxotava o bicho como se fosse um rato, com um susto.
Luna cresceu debaixo desse pesadelo, nem dormir tranquilamente ela dormia, por causa de você ela se arrastava pela sombra, serpeando, fugindo da sua troça mórbida, se escondendo dos seus passos, até que se tornou paranoica, se metia em gavetas estreitíssimas, vivia dentro do forro do sofá, só alta madrugada saía para comer. Mesmo as outras gatas da casa
a ignoravam, incomodadas com aquela criatura estranha em tudo, de pelos tão longos e brancos, tão completamente louca e tão bonita. Era como se apenas por descuido ela se deixasse encontrar, já com um tremor constante enxertado nela. Mais intuíamos sua presença que outra coisa, e se de repente, por azar, nos cruzássemos sem querer, o melhor que podíamos fazer pela gata era fingir que não a estávamos vendo.
Quando mudamos para outra casa e você já não morava conosco, Luna não tinha mais nada daquele belo exemplar de Sagrado da Birmânia, era um bicho magro, encardido de viver debaixo de um deque no quintal, os olhos de um azul desbotado, uma mancha selvagem que aparecia e desaparecia pelos cantos, um fantasma de gato.
Um dia, uma velha bate à nossa porta, muito educada e sorridente compensando a economia de palavras, era a vizinha de mudança para o interior. Descobrimos aí que Luna tinha uma segunda casa e a mulher vinha nos perguntar se podia
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levar a gata com ela. A mãe consentiu, talvez um pouco emocionada, já não me lembro.
Luna viajou sabe lá para onde, com sua nova dona, muito possivelmente ganhou outro nome, talvez tenha até se curado do pavor antigo e recuperado os belos olhos. O contentamento dessa gata quando ela se viu livre, longe de nós. O gozo de caminhar sem ter de rastejar pelos cantos, o gozo de deitar ao sol e dormir sem sobressaltos, tudo de pouco em pouco, como cabe a um sobrevivente, até estar reabilitada para a vida de novo. Uma outra Luna, feliz, gorda, amada.
Gosto de imaginar que isso tenha sido possível, que o amor tenha realizado sua parte nessa história, aquela espécie de amor não planejado, vindo não se sabe de onde, que pega no corpo como uma planta pega na terra, surpresa não só para quem é amado, mas também para quem ama sem ter esperado por isso.
Veja você onde desembocamos. Podia ter pinçado outra lembrança, entre as que vêm sem muito esforço, mas então agora você não iria se lembrar da Luna, e o que eu queria, no fim das contas, era que você se lembrasse dela, que pensasse na gata feliz em que ela se transformou depois que se esqueceu de você.
! ' E Es
Mariana Ianelli nasceu em São Paulo em 1979. É autora de nove livros de poesia, entre eles, Fazer silêncio (2005), O amor e depois (2012) e Canções Meninas (2019). Tem dois livros de crônicas: Breves anotações sobre um tigre (2013) e Entre imagens para guardar (2017). Estreou na literatura infantil em 2018 com o livro Bichos da noite. Escreve quinzenalmente aos sábados na revista digital de crônicas Rubem. É curadora da página Poesia Brasileira do jornal Rascunho.
OS POROS NOS 0550S
Nara Vidal
Antes de começar a escrevê-la na minha cabeça e, eventualmente no papel, ela já me rondava. O espectro sentido num peso insuportável através de fotografias, memórias, indizíveis verdades, Vazio.
Minha vó, uma vez, me contou assim que quando criança, conversava com uma preta da fazenda dos pais dela. A preta tinha nome? Não se lembra. O que ficou foi só o dia que, presa num curral por desobediência, esticou as mãos para fora para segurar a minha avó. As mãos acorrentadas. A lei Aurea já tinha sido proclamada. Ainda assim, a mulher de correntes estava de castigo no curral e essa história chegou a mim por quem a testemunhou. Quem sofreu o caso que contou minha avó não disse nada. O que sei e o que vejo é o que viu a vó, do lado de fora do curral. Do lado de dentro, suja de esterco, mãos presas, moscas varejeiras cutucando a pele maltratada, a mulher não nos contou nada. Será que tinha língua?
Uma vez, na casa dos meus pais, abri uma caixa e lá encontrei Francisca e Carolina. Um papel grosso, esverdeado, caligrafia caprichada dizia que as duas tinham sido vendidas. Seus dentes e seus outros ossos eram fortes, eram novas, eram negras. Foram vendidas para o Capitão Elói Mendes que em 1888 recebeu o título de Barão de Varginha. Hoje, ele, não a Francisca ou a Carolina, é nome de cidade.
Quando eu morava no Rio e fazia Faculdade de Letras, meu pai, diretor do ginásio, organizou uma excursão até o Forte de Copacabana. A oitava série feita de meninos e meninas de 15 anos foi em peso. No caminho para o Forte, o ônibus parou na orla de Copacabana para que eu desse um abraço no meu pai, rara ocasião de visita. Um aluno desceu correndo do ônibus. Ele era negro, calçava chinelos que destoavam dos tênis da garotada. Quando ele disse que engolia o choro porque via o mar pela primeira vez, os colegas riram e
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o chamaram de jeca. Pensei que eu já não me lembrava da primeira vez que tinha visto o mar. Era compromisso anual em Marataízes ou Guarapari. Um mineiro que já não se lembra quando viu o mar pela primeira vez teve lá seus privilégios, ainda que em prestações e sacrifícios.
Na escola, meninos e meninas sem sapatos, traziam nos seus cabelos crespos e nos seus cadernos porções amarelas do poeirão da estrada rural de Guarani percorrida diariamente. Exaustos, eram mandados para o fundo da sala onde eram esquecidos por todos e podiam dormir. Sempre repetiam de ano porque preguiçosos, diziam os educadores, dormiam durante a aula.
Na Inglaterra, visitei uma feira de quinquilharias. Notei um quadro de uma princesa. Ela usava um turbante lindo, brincos pesados e dourados, estava de perfil e olhava para baixo. A pele era escura. Eu a reconheci: ela era os meninos do fundo da sala de aula, O rapaz que virou chacota porque viu o mar aos quinze anos, a mulher de correntes nos punhos, a Francisca, a Carolina. Era o fantasma, essa carga, esse peso, essa humilhação, um país.
Se chamaria Mariava” e entraria em um livro que eu escreveria. Sua história seria uma narrativa de lacunas, de incômodo nunca satisfeito, com seu caminho apagado e seus olhos cegos.
Silêncio.
Nara Vidal é mineira de Guarani. É autora de Sorte (Prêmio Oceanos 2019) e Mapas para desparecer. Mora na Inglaterra.
* Mariava virou uma das personagens do meu romance Sorte, publicado em 2018 pela Editora Moinhos e que foi traduzido e publicado na Holanda.
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3 AA) [a IM Ea
Silvana Guimarães
... e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito. eclesiastes 1:14
2416
112 quilos de botox, dezessete litros e meio de silicone, 16 dentes na vagina — ácidos hialurônico e retinoico, hidroxiapatita de cálcio, polimetilmetacrilato, próteses,
transplantes, implantes: perdi a conta —, 439 anos depois
2458
seis títulos de miss universo(s) linda jovem gostosa desejada aos 444 anos ninguém me dá
mais do que delirantes 220
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dou mais do que mudo de roupa
2363
minhas tetas musicais fazem sucesso no faceback: a qualquer apalpadela alheia espalham seu som estereofônico por aí
enrubescem e fazem prostrar todas as galáxias a preferência comum entre os machos:
la cumparsita em ritmo acelerado
2365
cortaram a última árvore da terra
mataram o último voo do pássaro amordaçaram a última lira
e não há nada de novo sob o sol
o solo sol: acabou-se a mágica
2366
os vínculos telepáticos destruíram por fim a linguagem ninguém precisa mais da palavra
menos eu, que invento uma
e sofro dela: so-li-du-me
2040
nostalgia de auroras bem-te-vis arco-íris as montanhas da minha cidade
pão de queijo arroz com pequi
aquele vestido de veludo grená
sentir a alegria de minha avó canhota quando
tocava bandolim ou recebia uma carta
2038
meu sangue pela beleza eterna
dois faróis amarelos esverdinhando-se
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a febre nos olhos de açude
— é assim que ele goza —
em troca, fui condenada à vida
2037
não reparei nos dentes caninos nem nas faíscas que seus olhares
jorravam sobre a minha jugular
SÓ nos sussurros roucos [quando
gemer ainda era permitido]
24/1
nunca nunca mesmo
aceite doces de uma pessoa estranha
Silvana Guimarães vive nas alturas. Monja eremita, em 2517 foi esquecida no mais elevado monastério de Meteora, na Grécia, onde é assistente de enfermagem. Especialista em febre. Garimpa tempestades, fala sozinha, lava gatos, caça palavras. Seu livro de poesia — O corpo inútil — está no prelo.
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ADTO DE NATAL
Adriane Carcia
Ave-Maria cheia de Graça
O Senhor é convosco
Qual matrioskas nasceu Maria De Maria de Maria de Maria Das galés
De parteiras
De Marias
Maria solta um berro De bezerro que bebia Mais leite do que Maria
Ave! Nasceu!
Na luz anônima de março Sem estrela
Maria
É de pesado astro
Galinhas, pintinhos
Vaca, boi, pinheiro
Não é dezembro e os reis Magos, magros
São os tempos
Maria envolta em andrajos Manta puída, mãe de vento Vai para o colo de outra
E outra e outra:
Matrioskas
Maria longe do peito Maria fazendo escala Maria Belém fugindo Herodes com seu buraco Fome, fomes, Maria Maria, a mãe, onde está?
Nem ouro, incenso ou mirra Nem mesmo um boi-bumbá Estrelado somente o dia
A secar Maria, a secar
À noite Maria molha
O colchão e os modos
De olhar
Maria mijona Maria chorona
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Maria, incômodo mar
Ave! Um anjo, Maria
Não tarda a vir consolar
(e Maria monta um presépio bota um menino no altar)
Maria crescendo quer dar à luz Um homem
Mas no escuro vem
Maria
De Maria de Maria de Maria De Maria
Das galés.
Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (ed. Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed. Penalux, 2018), Arraial do Curral del Rei— a desmemória dos bois (ed. Conceito Editorial, 2019) e Eva-proto-poeta, ed. Caos & Letras, 2020
Manuella Bezerra de Melo
esperar um anjo com sua trombeta esperar cuspir as pérolas antes de engolir os rubis na areia
a areia em cascalhos
os pés sujos de piche
o piche sujo de cobiça
as pérolas cagadas dos porcos
esperar uma noite bonita
um momento sublime
a luz ideal de velas
do lustre
do sorriso do gato
do breu
do silêncio que precede a dor
esperar que cresça o filho um ano tem 365 dias
um fi lho viverá muitos anos até que você volte a dormir uma noite parcial
nunca mais voltará
nunca mais voltará a dormir
esperar pelo verão
três estações inteiras
um terço de um ano
folhas secas animais mortos
pelos de gato nas almofadas
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adubo aduba tudo tudo morreu até você
esperar que cresça o cabelo
os fi os do cabelo precisam do sol do verão não crescem porque são cortados
são cortados porque não crescem queria-os longos mas os corto
como corto minha língua
minhas asas e meus punhos”
Manuella Bezerra de Melo é recifense, autora de Pés Peque- nos pra Tanto Corpo (Urutau, 2019) e Pra que roam os cães nessa hecatombe (Macabéa, 2020), tem mestrado em Teoria da Literatura e atualmente cursa o Doutoramento em Modernida- des Comparadas: Literaturas, Artes e Culturas na Universidade do Minho, em Portugal, onde reside.
* Poema extraído do livro Para que roam os cães nessa hecatombe (Macabea, 2020).
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Fernanda Limão
É chegada a hora de fazer limpezas Na casa, na mente, no corpo
No baú de lembranças empoeiradas Nas novas práticas cotidianas
Nos setores abandonados de afagos Nos canais abertos
Que sempre estiveram fora do ar
É preciso espanar os enfeites inúteis das estantes
E estender nos varais os lençóis mofados dos afetos
É urgente percorrer as veredas do interior
E conhecer vales profundos
Há que se capinar os campos inférteis
Adubar a terra para que o novo floresça
E oferecer margaridas a quem se perde entre as campinas
É preciso entender de sementes E cultivar cada uma em seu território
Não se sabe quem disse que existem ervas daninhas Se os danos não vem das raízes
É necessário agora pousar os pés em terras férteis E plantar novas estradas
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Abrir caminhos na aspereza das pedras E acomodá-las em outros lugares
Outras estações virão
E as folhas secas do outono ainda estarão lá E será preciso juntá-las até surgirem
novos espaços para caminhar
Caminharemos muito para desbravar novos tempos
Fernanda Limão é poeta, professora e produtora cultural. Natural de São Paulo, vive em Garanhuns desde o ano 2000. Tem poemas publicados em diversas antologias impressas e digitais desde 2010. Em 2018 lançou seu primeiro livro autoral Olhos de nuvem, pelo selo cartonero Severina Catadora.
LSMOR CONJUGADO
Juliana Berlim
Rio de Janeiro, 05 de abril de 2020 Meu amor,
Eu não sei se isto é a última carta que irei lhe escrever, mesmo sendo pouco mais do que a primeira. Escrever cartas é um hábito em desuso, e a velocidade dos e-mails tornaram as pessoas preguiçosas para a expressão escrita intimista, preferindo neste caso a troca interpessoal. Eu, de minha parte, sempre achei que o ato de escrever uma carta de amor não era só ridículo, mas, a repetir o mesmo bardo, uma atividade inalienável dos caminhos do amor, porque só quem não escreve cartas de amor é realmente uma pessoa ridícula. Sei que você não gosta de ler poesia e só se preocupa com música, mas Fernando Pessoa faz bem para a pele e para a alma de qualquer vivente, ainda que, nos dizeres de António Lobo Antunes, Pessoa fosse pouco confiável por não fazer sexo. Com ou sem sexo, faça como a maioria das pessoas sensatas e leia Pessoa. Aproveite e leia Shakespeare também, mais sensato ainda.
Eu me perdi. É a falta de costume, perdoa, amor. Estou desacostumada a escrever cartas românticas que não sejam despedidas. Nesta eu não chego a me despedir de você, mas chego ao ponto a que quero chegar, que é conversar sobre nosso afastamento. Só mesmo uma carta para me dar coragem de dizer o que quero dizer faz tempo. É isso um fim? Não sei dizer. Só sei dizer que preciso de espaço. Espaço espiritual, sem dúvida, mas espaço físico incluído. Preciso do meu próprio quarto, da minha própria cozinha, do meu próprio banheiro, preciso conseguir demorar no banho sem me preocupar se você chaga a qualquer momento para me interromper. Preciso de uma banheira, que você se recusa a comprar para nossa casa. Preciso escrever sem ouvir as músicas do Dylan ou Hendrix no último
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volume, ou sem seus amigos de banda bagunçando toda a sala, colocando os pés sobre minhas almofadas e pondo lata de cerveja sobre minha cômoda. Preciso cozinhar a comida sem ninguém controlando o uso do óleo ou reclamando de eu estar preparando uma comida balanceada, até porque você é o único namorado da face da Terra que reclama de eu cozinhar comida saudável, sondei minhas amigas e os namorados delas reclamam que elas não cozinham! Na minha opinião, se nos afastarmos, até nosso sexo, que continua incrível mesmo depois de intensos três anos, vai se beneficiar.
Visitei uns apartamentos que coubessem no meu orçamento e, apesar de morarmos em um bairro meio caro (escolha sua, para ficar perto da sua mãe), adivinha só, achei um conjugado todo mobiliado pela metade do preço do nosso aluguel. Onde, você vai me perguntar? No nosso prédio! Vagou há alguns dias, a antiga inquilina ganhou uma bolsa de estudos do governo francês e precisa se mudar com urgência. Como ela está precisando fazer tudo com muita pressa, falou que segura o apartamento até depois de amanhã e nem me pediu caução, por sermos vizinhas e ela nos conhecer. Lembra dela, a moça branca do cabelo azul, que a gente dizia ser igual à menina daquele filme que vimos, por acaso um filme francês? Como eu ri de todas essas coincidências, até lésbica ela é, está se mudando pra Europa com a namorada coroa. Ah, você não deve estar rindo. Se estivéssemos juntos e eu te contasse esta história, você não riria. Você só riria se fosse uma piada amarga de uma letra do Dylan. Você só ri de coisas que não são facilmente engraçadas.
Então, meu amor, esta é minha carta de despedida. Do nosso relacionamento? Não, da nossa convivência mútua. Se você vai conseguir pagar o aluguel e o condomínio sozinho? Agora é com você e com algum dos seus amigos, que você dizia serem mais fáceis de conviver do que comigo. Se eles vão querer dividir a conta com você? Esta é a pergunta que você deve se fazer agora, porque vou fechar o negócio com a doidinha do conjugado amanhã mesmo. Nos próximos dias, vou tirar minhas coisas da nossa casa, melhor, da nossa ex-casa. É nosso fim? Só espero que seja um tempo de descanso, para que possamos voltar mais fortes do que nunca. Será a última coisa que vou te escrever? Sabe, eu não (..)
Da sempre sua...
Juliana Berlim é professora de Língua Portuguesa e Literatura do Colégio Pedro II. Como escritora, tem textos publicados em diversas publicações no Brasil e no exterior. Coordena o clube de leitura escolar Neuromancers ((Dneuromancersclubede), especializado em literatura fantástica. Co-organizou Transliteraturas (Oficina Editora). Participa de e organiza antologias de literatura fantástica.
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E PEA
Chris Hermann
com olhos faiscantes
e lábios de mel infinitamente
enquanto dure...
ela o fascina
você a beija Ê
e a sussurra a não descoberta que: doçuras as suas mãos
não passam de patas, embaixo da sua cama há outras gatas,
por detrás das suas falas de amor
só havia garganta
com manto de fogo e corpo ardente
ela o arranha vocês se assanham
envoltos por labaredas vocês se incendeiam gritam e se gozam
então ela o deixará, continuará gata e você, anta
é Chris Hermann é escritora/poeta, musicista, editora, tradutora, i webdesigner carioca, radicada na Alemanha desde 1996. No Bra- sil, estudou Literatura, Música e Webdesign. É pós-graduada em Musikgeragogik na Alemanha. Organizou e participou de diversas “antologias de poesia no Brasil e no exterior. É autora dos livros de poesia: Gota a Gota (Scenarium, 2016), Cara de Lua (Sangre Edi- torial / Mulheres Emergentes, 2019), dos romances Borboleta — a menina que lia poesia, (Patuá, 2018) e Peccatum (Arribaçã, 2020),
É editora da Revista Ser MulherArte. www.christinaherrmann.com | www.sermulherarte. com |http://anchor.fm/podsermulherarte
Déh Zabelêé
Os dias dilatam no trânsito da rotina Amálgama de amor e de cansaço Cruzam-se sonhos, desejos e laços Resgatando aos poucos o fôlego da vida
Mãe!
Som vindo do sono e ainda dormido grita Na escuridão do quarto de imediato a mulher abarca A poesia transforma-se em efetiva dádiva Onde falta tempo para escolher palavras Onde vicissitude e presença se confundem E o que fui já não me pertence
Sou outra desde que fui morada
As gotas dos meus seios te livram
O mal do tempo não te pega
O sopro que mora na minha cabeça
Está suspenso no bafo quente do céu Ajalá, que eu chova para ser eu
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Déh Zabelê [Débora Ramos] é natural de Garanhuns/PE e cidadã do mundo. Transita em diferentes esferas da arte: artes cênicas, literatura, fotografia e música. É cantautora e intérprete de inquietações silenciosas, poetisa, performadora, intérprete-pesquisadora em Dança. Atuou no Teatro do Oprimido Berlim no grupo feminista “Madalenas” dirigido por Bárbara Santos e pesquisa e repercute ritmos afro-brasileiros desde 2013. É produtora cultural, capoeira, mãe de Zúli Ramos e formanda do Bacharelado Interdisciplinar em Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas na UFRB/CECULT. É pesquisadora e integrante do grupo de pesquisa LEEA — Laboratório de Etnomusicologia, Antropologia e Audiovisual da UFRB.
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BORACO
Michaela v. tchmaedel
É de um jardim inesperado Enquanto isso nesta área semidevastada tento manter o amor que volta-se a ter fé no amor. escondido num buraco
protegido das aves de rapina A batalha é grega perdida entre a beleza o amor numa toca de tatu. e a força.
Rolos de feno secam nos campos americanos um infeliz escreve
jesus te ama
com o arado.
Michaela v. Schmaedel (1976) é jornalista de cultura, nasceu e mora em São Paulo. Nos últimos anos, tem se dedicado à poesia, além de escrever resenhas sobre literatura para jornais e revistas. Cursou o Clipe (Curso Livre de Preparação do Escritor), na Casa das Rosas, e oficinas de poesia com Angélica Freitas, Tarso de Melo, Is- mar Tirelli Neto, entre outros poetas brasileiros. Coração Cansado, editora Penalux, é seu primeiro livro de poemas.
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MAPA MON
Daiana Moura
Eu adoro olhar
E ver a costa do Brasil
Se entregando na cama do mar Para o colo da África
Fecho o olho e imagino
O abraço de África
Cobrindo a costa brasileira do mais Rico e ético e idílico amor
as duas de conchinhas repousando serenas
sem sombra de rancor
As placas todas tremelicando
As ondas nos aproximando Fronteiras frágeis caindo
Com o rugido do bravio terremoto do maremoto
do tsunami
O caos instalado
Com tantos abraços dados
E a terna America
Se amando e gemendo Calorosos brados Ecoando pelo mundo
Como que dizendo:
somos o sul
O mais miserável
Dentre os miseráveis mundos Que há dentro do mundo Mas neste planisfério azul Não há mais calor e mais amor que abaixo de nossas nuvens e sobre nossa terra quente
e grávida sempre
Solo louco e profundo
tão cheio de muros e dentes de facas e foices
que entalam e sufocam
os exauridos viventes
Também divago na transa
sutil e mansa
leve
vagaroso e gostoso amar
Que o Panamá faz quando encosta na Colômbia Bela imagem
E é nessa ponta
Que mora a ponte
Central com a Sul
e se tocando
irradiam linhas invisíveis
brilhos intensos
Cheiros, sabores, sementes e cores Correndo como
o iluminado sangue
que a vida do corpo-america fez.
Medo, pena e certa angústia eu carrego com o corpo grande e pesado dos Eua
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segurando firme e rude todo o dorso do México E essa costa corpo-vivo berra e anseia
novas páginas nos livros E daí para cima
não tenho desejo
Daí para cima o mundo parece o mais impiedoso cruel e vergonhoso Gelado polo
dos relacionamentos abusivos
De mais a mais
O que realmente me enche de somas e de sonhos
é pensar em entrar
bem rapidinho por Portugal
- entendendo que tudo deles que há de belo lá
Pertence a nós
dos nossos avós daqui
Dai caminhar pela Espanha
Por que descendo
tem o rumo mais certo
A espanha dá um selinho em Marrocos E de lábios trêmulos e marejados olhos meus pés cruzam o mundo
E voltam para a terra mãe
são as cores, as tintas, Os gritos
Os lenços esvoaçantes que me lembro sem nunca ter ido
mas eu sei que é por ali
que meu coração inicia novo bater
descendo e auscultando Os velhos sempre novos tambores que guiam a vida Mesmo quando silenciam Murmuram em salamaleicos vibram em “uis” e “mercis” Porque toda gente
Assim como toda terra sempre viva
Sabe bem de onde
Como
E porque tudo começou
É assim que eu
danço os amores
e os conflitos do mundo Pensando nos beijos e abraços No vibrar da minha terra
Que aquece minh'alma
Que alivia meu cansaço
de tão árida
nem deixa a lagrima cair no chão As águas que secam
a meia face
sabem que nem deveriam
nem poderiam existir
não haveria razão motivo ou circunstânciar na história que pudesse aceitar o meu lamento
que é o lamento mesmo da terra da minha
que é de todos
que é passagem apenas
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e nada mais
Olhando a bola -ainda que a desejem plana
que num incessante girar sobre si mesma
E por outros maiores espaços ganhar
Quando penso nas porções de elemento
terra que a terra tem
Desejo estar lá
E lá pisar
e lá habitar
nem que por instantes
e sinto na densidade dela
que ela sou eu
e eu sou ela
e que ela não me pertence
como eu não pertenço a ninguém - sou também passagem
Que permitam as deusas
de todas essas terras
que a Terra divinou para si
que eu possa criar
e adivinhar
nela mesma o desenho
dos meus pés
deles dois,
cheinhos de dedos
E não dos sapatos
Desenharei a pegada
mais leve e mais grata
mais terna e mais gentil
em cada uma dessas porções
de américas e áfricas
que de ninguém são
sendo de todos ao mesmo tempo
só por ir
só por estar nelas e assim em mim
que me permitam
essas mesmas deusas
que eu nunca machuque que minha mão nunca em sangue de nenhum povo se suje que nenhuma ruindade minha cause maldar
Que meu corpo e minha arte soprem semeares
de risadas boas, amores críveis e profundos pensares
sobre as dores
para que possam cessar
e sobre justiça que venha sem tanto tardar
que de sonho em sonho meu eu se espalhe
que meu leve pisar
seja cura
seja o elo que junta as peles para cicatrizar as feridas
tão abertas
tão grandes
tão expostas e tão doídas
Assim fazendo as deusas também permitirão
- eu sei porque nós nos sabemos juntas que cada pedaço de terra que cada porção de chão
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conhecido ou não
seja barro
mole ou duro
que num (n)ovo molde transforme e cole
também (e com as graças delas) as feridas do meu coração
Daia Moura é atriz, performer e arte- educadora. Mestra e doutoranda em educação pela UFScar-Sorocaba. Membro do NEGDS - Núcleo de Estudos de Gênero, Diferenças e Sexualidades da Ufscar e do projeto-coletivo Mulheres e Luta. Integra a Plataforma de Pesquisas Cunhãântã, o Coletivo Cênico Mulheres de Utopias e as Redes Feministas Interpretas e Mulher em Perspectiva. Viandante utópica que acredita no poder revolucionário da arte e do amor.
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COLETIVA
A coletiva “baRRósas” foi criada por moradoras do Barroso, um bairro periférico da cidade Fortaleza - CE. A proposta da coletiva surgiu após a segunda edição do “Slam Violeta”, batalha de poesia do Conjunto Violeta, localizado ao lado do Barroso; no qual não havia participação feminina, embora este fosse seu maior público. Neste contexto, decidimos criar um sarau no bairro Barroso realizado apenas por e para mulheres. Mas, diante da pandemia (Covid-19), a ideia de realizar o sarauteve que ficar em segundo plano, surgindo, então, a proposta de criar uma página na plataforma Instagram, a qual demos o nome de “baRRósas”, um trocadilho que representa Barroso no feminino. A nossa coletiva, atualmente, é composta por 11 mulheres e tem como objetivo principal trazer visibilidade para a(s) literatura(s) feita(s) por mulheres e incentivar/valorizar o processo de escrita, principalmente, das mulheres que moram nas periferias.
BARRÓSAS
A“baRRósas” é uma coletiva autônoma, que (re) existe possibilitando momentos de união e de fortalecimento para todas nós que compomos a coletiva, além de também buscar possibilitar espaços de liberdade e esperança para outras mulheres. Agenciamos, assim, vivências que buscam contribuir, cada vez mais, no que diz respeito, principalmente, ao enfrentamento de problemáticas estruturais que perpassam nossas realidades, como o machismo, o racismo, a transfobia, entre outras. Problemáticas estas que perpassam os espaços, inclusive, artísticos, de nossas “quebradas” com muita intensidade.
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A AT E = mn |
Imagem: acervo da Coletiva. Na Foto (atrás) da direita para esquerda: Lais Futália (Ig: (Dlais.eutalia), Bruna Sonast (Ig: (mbsonast.), Anna Silva (Ig: (mthisartstudio), Fernanda Teixeira (Ig: (Dnandadango), Éder Abner (da Biblioteca Viva Barroso), Lúcia Viana (Ig: (Dflor indefinida), Raphael Montag (da Biblioteca Viva Barroso). Na frente: Gessica Gomes (Ig: (Dmagazzart), Hevila Coelho (Ig: (Dhevilacoelho) e Karyla Freitas (Ig: (Dkaryla.freitas).
PO QUERTASESCREVER SRB E A GUERRA INTERNA
lais Futália
sobre a batalha diária pra conseguir o pão mesmo esse pão sendo amassado nas minhas costas
e o diabo nem tem nada com isso
queria falar sobre a guerra travada esquina versus outra rua em que os integrantes desses exércitos
nem sabem o motivo da matança anunciada
tô muito cansada pra falar sobre isso só quero botar as pernas cima
y fumar meu cigarrinho pra esquecer dos b.o.
mas, essa semana uma mãe não pôde velar seu filho
e eu chorei
ontem eu li uma puta poeta da cidade
que falava sobre guerra e cotidiano
falava sobre conseguir o pão e proteção
mas só consigo pensar no cuidado e medo
de ver os meus ao chão
ontem avisei uma conhecida querida para sair da rua
porque a coisa não tá brincadeira
e hoje eu bebo minha gelada e peço que as espumas do mar e da cerveja nos banhem de proteção
e que bebamos intuição
proteção, proteção!
Lais Eutália é historiadora em formação pela universidade federal do ceará. escritora, professora, poeta e dentre todas as coisas - vivedora. filha dos céus e mares, ama os ventos de agosto e tem mão boa para plantas. lança seus escritos na (&) escritasvulcanicas e publicou antologia “amor nos tempos de lonjura” pela mira da janela”).
Lúcia Viana
O quarto... Houve um tempo que eu não podia sair do quarto. O que é bem lamentável, pois me fazia sempre dentro dele: meu pequeno mundo, uma prisão covarde. Hoje, corro mundo a fora, quebrei as paredes do quarto, derrubei, para nunca mais levantá-las. E nesse desespero de querer viver, correr rumo ao tempo perdido, sair do espaço apertado, meu eu se fundiu com o mundo, e as quatro paredes são a
E RR A
minha fobia. Me dói no peito lembrar dessa dor, de tirar o batom da boca e de tirar os brincos com medo de ser vista... Limpar os lábios com tanta força que sangrava. Não tem água que tire a minha maquiagem e não tem paredes que me façam parar mais.
E do quarto, só me resta a lembrança amarga.
Lúcia Viana - “Me chamo Lúcia Castelo Viana, escritora,
poetisa e fotógrafa. Estudante de Letras português francês na 4 UECE, escrevo há 15 anos. Sou transativista, sou participante ))-— - da baRRósas, desde seu princípio. Como costumo dizer, sou uma mulher perdida em um corpo qualquer”
Bruna tonast
à Carolina,
dizia não saber escrever poemas sociais, sabe?, engajados... mas, as vezes, dessas vezes que são muitas vezes, pensava se existia isso de poema desengajado, sem socializar nada, como se fosse cada um de nós um ser isolado de qualquer coisa outra que nos rodeia, feito quatro paredes de um muro de Berlim esquizofrênico.
e eu nunca soube o que era a fome, tão farta de afetos e de comida, olhando o amor com olhos fáceis e a comida como regra, nunca exceção; mas, excedendo tudo, assim, e sempre assustada com a violência da insensibilidade.
dizia não saber escrever poemas sociais e engajados, para além das gavetas e das ausências, como se existisse isso de desengajamento antissocial: existe? é de comer? faz chorar?
é que eu sempre achei que o amor fácil e a consciência de assumir todos os atos, em especial as palavras, me redimia das regalias que quase sempre ainda tive, e, no fim, acho que meu ato mais honesto foi apenas o de ser mulher...
nunca soube da fome, que transforma os olhos e decepa as palavras, mas, te escrevo um poema, assim, para que resistir seja não deixar de sonhar... sonhando (n)a tua poesia...
e eu queria tanto adentrar teu quarto mais mulher, mais forte... (a)colher cada um dos teus papéis...
para que talvez assim, talvez só assim, fosse eu gente melhor.
Bruna Sonast, estudante da e pela linguagem-vida, me (des) (re)faço poeta, escritora independente; tendo lançado de forma independente meu primeiro livro de poemas “vestígios”, em 2020. fiz graduação em letras português e mestrado em linguística aplicada, na uece. componho a coletiva “baRRósas” e as “escritas vulcânicas.
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TRANSFOBIA
RECREATIVA
A CONSTRUÇÃO DO EIGAR
DAS TRAVESTIS
NO IMAC RNAR TIO
PA SOCTEDADE” BRASTEETDA ATRAVÉS DO HUMOR
Elisha Silva de Jesus
Estereótipos raciais e de gênero permeiam a forma como são represen- tadas as mulheres trans [1], no Brasil. Comumente são retratadas nas mídias enquanto caricaturas engraçadas, exage- radas, cômicas e que fazem as pessoas rir ou são retratadas como personagens controversos, ambíguos os quais tendem a enganar as pessoas nas estórias. Por décadas ainda somos vistas como mar- ginais, bandidas, prostitutas e perigosas, principalmente na figura da travesti, re- tratada dessa forma em mais de 80% dos noticiários sobre assassinatos e crimes, nas mídias, jornais, revistas e programas televisivos informativos [2]. É corriquei- ro a propagação de programas humoris- ticos que retratam as travestis através de estereótipos negativos, banalmente relacionadas à prostituição e a fraude
da imagem das mulheres cisgênero [1] para conseguir homens cis. Nas relações sociais, costumeiramente mulheres cis- gênero se sentem ofendidas ao serem comparadas com as mulheres trans, o que na maioria das vezes é reproduzido em tom jocoso, pejorativo e com o intui- to de gerar satisfação cômica por meio de piadas. Até mesmo dentro da comu- nidade trans, mulheres trans negras são ridicularizadas por causa de seus traços fenotípicos, como formato do nariz e o cabelo crespo, lidas como inferiores na margem das margens.
São inúmeras situações vexató- rias, constrangedoras e cômicas onde nós mulheres trans, sobretudo negras somos vistas, na fronteira entre os gê- neros ou colocadas como personagens engraçados e traiçoeiros. Não é a toa que
na última década as mudanças sentidas por este segmento da população perpas- sa a cultura. Ganhamos um pouquinho a mais de espaço nos programas, novelas, séries e minisséries. Estes programas tentam, ainda que de forma tímida, cons- truir um novo imaginário do que seja a transexualidade pela figura transgêne- ro. Contudo, muitos destes programas reproduzam uma imagem patologiza- da de que vivemos no corpo errado ou existimos para gerar entretenimento ou ainda nos retratam pelo viés da dor e do sofrimento. A minha proposta neste artigo é refletir sobre a transfobia recre- ativa, OU seja, a maneira através da qual a imagem da mulher trans é construída por meio de piadas, situações vexatórias e do humor na construção de noções so- ciais associadas a inferioridade de nos- sos traços fenotípicos e estéticos, o que consequentemente inscreve nosso lugar na sociedade.
Proponho a reflexão a partir do li- vro “Racismo Recreativo”, escrito pelo Adilson Moreira [3]. Em poucas pala- vras, O autor argumenta que o humor é o modo através do qual são inscritos este- reótipos morais e materialmente degra- dantes sobre o povo negro no imaginário social, o que consequentemente perpetua relações de poder e o lugar social destas pessoas. Nem todo humor é racista, mas o humor racista tem como objetivo gerar determinado sentimento de superiori- dade racial através da satisfação psico-
lógica das pessoas que o reproduzem. Através da psicologia social do humor, o autor destrincha a construção dos este- reótipos racistas direcionados a homens, mulheres homossexuais negros. O autor tem um capítulo para falar sobre o este- reótipo da bicha preta, tomando o caso do personagem Vera Verão, vivido por Jorge Lafon.
Ainda que Adilson não fale espe- cificamente de pessoas transgênero, as ideias contidas em seu livro sobre os pro- jetos de racialização, conceitos de micro- agressões, psicologia social dos estere- Ótipos e dos estigmas, psicologia social do humor e racismo recreativo podem ser usadas para reflexão acerca da forma como o humor é usado para legitimar relações de poder e consequentemente justificar o lugar historicamente ocupado por determinados grupos sociais. Ade- mais, a violência cometida contra tra- vestis e transexuais negras corresponde a mais de 70% dos dados estatísticos [2], o que evoca a necessidade de olhares in- terseccionais [4] e [5]. A indissociabili- dade dos marcadores da diferença, como racismo e transfobia, permite a reflexão sobre como essas opressões tornam a vida de travestis negras vulneráveis num contexto dentro do qual o Brasil tende a negar tanto a existência do racismo, quanto da transfobia por meio do mito da democracia racial e da igualdade de oportunidades e direitos.
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HUMOR E REPRESENTAÇÃO SOCIAL
O humor pode ser compreendido como resultado de comunicação ou ação através da qual se induz uma pessoa ao riso, devido a natureza jocosa, estranha ou inesperada. Essa ação ou comunica- ção pode ser verbalizada, expressa por meio de gestos ou atos visuais capaz de gerar uma reação emocional desde um simples riso até gargalhadas. Por mais que pessoas possam rir sozinhas, o hu- mor está atrelado ao contexto cultural onde ocorre, porque está relacionado ao fato de que o encontro entre mais pessoas pode ser uma fonte de prazer. O humor pode tornar as relações huma- nas mais agradáveis, na medida em que permite as pessoas interagir de modo informal. De modo criativo, o humor envolve o processamento de estímulos de mecanismos mentais na evocação de memória, jogo com palavras, ideias e simbolos. Além disso, o humor produz reações emocionais, através do estímulo de prazer proporcionado pelo momento cômico, proporcionando momentos de prazer, relaxar do corpo e da mente pelo momento de interação social. É uma for- ma de relaxar das tensões e adversidades sociais provocadas por uma sociedade estressante, racista, transfóbica e ma- chista, o que muitas leva certos grupos
minoritários a satirizar sua própria con- dição [4].
Então, o humor está relacionado com as informações a serem processa- das, geralmente decorre da comparação entre grupos sociais e raciais, através da qual grupos sócio raciais podem se sentir superiores. Adilson Moreira discorre so- bre as teorias do humor, dentre as quais a teoria da superioridade pressupões que o humor foi desenvolvido desde os tempos clássicos ocidentais como uma maneira de diferenciação entre os grupos dominantes e inferiores, marcando seu lugar e status na sociedade, satirizando a condição dos inferiorizados. As teorias psicanalíticas sugerem que o psiquismo, através do humor, produz uma descarre- ga de energia mental por meio do caráter cômico de uma frase, história ou gestos, com o intuito de gerar uma satisfação psíquica [3].
Diante disso, o racismo e a trans- fobia por meio do humor reproduzem estereótipos negativos, o que gera a con- cepção de que membros desses grupos possuem defeitos morais, por isso sem- pre estão envolvidos em situações ridi- culas e degradantes no contexto criado pela história humorística. Isso reforça a noção social de que estes defeitos morais seriam inatos, devido à associação com traços fenotípicos. O humor transfóbi- co e racista causa danos psicológicos e sociais nas vítimas desse tipo de mi-
croagressão, degradando-as moralmente e materialmente devido às percepções negativas construídas sobre a imagem delas. Estas manifestações estão relacio- nadas ao contexto social na qual ocor- rem. O humor racista e transfóbico existe estrategicamente coma finalidade de per- petuação dos estereótipos responsáveis pela marginalização material e moral dos grupos minoritários e as piadas tem sido usadas como forma de legitimidade des- te lugar social. A transfobia recreativa e racista cria uma sensação de satisfação psicológica nas pessoas que se sentem superiores, o que cria uma certa noção de solidariedade entre os grupos cultural e político dominantes, ajudando a selar o pacto narcísico da branquitude [6] e do lugar social das pessoas cisgênero em detrimento da população trans.
Transfobia e racismo recreativos são práticas culturais legitimadas por quem está socialmente autorizado a construir sentidos e significados cultu- rais e atribuir-lhes aos grupos minoritá- rios alvo deste humor. A seguir estão al- guns exemplos de como o humor racista e transfóbico é propagado nas mídias, como televisão e canais no youtube.
Certos programas humorísticos usam imagens de pessoas negras e trans em situação humilhantes e degradantes para gerar situações cômicas, engraça- das e vexatórias. Em tom jocoso, ato- res caracterizados em blackface [7] e
transfake [8] criam personagens estere- otipados, com uso de tintas para repre- sentar a pele negra, narizes grandes e lábios imensos para criar personagens moralmente rebaixados e culturalmen- te inferiores, com o intuito de fazer as pessoas rirem da situação. Em relação às pessoas trans, geralmente homens cis usam vestidos, brincos e maquiagem para representar personagens exagerados. Alguns programas pagam para mulheres trans aturem em situação humilhantes pelo fato de serem trans, aproveitando-se de sua vulnerabilidade social pela falta de empregabilidade.
Existe um programa onde o teles- pectador é convidado a “descobrir”, en- tre as mulheres disponíveis, todas bran- cas, quem é a transex. Então, elas posam em trajes de banho e até ficam nuas sob o véu transparente de tecidos de modo e estimular a criatividade do telespectador. Em outro programa, homens na praia são convidados a passar protetor solar em mulheres, todas brancas, e depois são “surpreendidos” com a notícia de que se trata de uma mulher trans. Em outros episódios deste programa de humor, ho- mens são atraídos por uma proposta de assistir gratuitamente cenas de strippers, mas deixam o estabelecimento de forma agressiva ao se deparar com transexu- ais. Em outro programa humorístico, um homem cis realiza blackface de forma que os traços fenotípicos de uma pessoa negra são exagerados (nariz largo, lábios
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grossos e rosa) e transfake para dar vida a uma personagem travesti pedinte no metrô.
Ao utilizar do estereótipo da mu- lher branca, loira, esbelta e curvilínea, homens cis são atraídos para “se apro- veitar” delas ou então brincam com o imaginário dos homens acerca dos traços fenotípicos dessas mulheres e que pos- sam atraí-los. O humor está justamente imbricado na descoberta de que se tra- tam de mulheres trans, o que leva os homens ao constrangimento. Além de propagar o estereótipo de que mulheres trans são fraude, ainda corroboram com o estereótipo de atração sexual a partir da exaltação de atributos da feminilidade branca. Se as mulheres fossem trocadas por mulheres negras, o humor não teria graça, porque justamente brinca com aquilo considerado esteticamente atra- tivo. Além disso a transfobia recreati- va atinge indiretamente as pessoas que se sentem atraídas por mulheres trans e travestis, na medida em que humilham e envergonham essas pessoas por meio de piadas.
Em outro programa, intitulado qua- dro da verdade, a busca incessante por audiência leva à “revelação bombástica” de que um homem cis casado com uma mulher cis, sente atração por mulheres trans. Em outro quadro de piadas, uma atriz branca, magra e loira, oferece a ven- da de fotos íntimas em troca de dinheiro.
Após seduzir os rapazes, os quais pagam pelas fotos, ela mostra imagens íntimas de mulheres trans não redesignadas, o que leva os homens a se sentir ofendi- dos e agressivos. Em outro episódio, ho- mens cis são “humilhados” ao descobrir que as mulheres que eles paqueraram na balada, são trans. Em outro quadro, homens são atraídos pela voz de mulhe- res e reagem agressivamente ao notar que se tratam de mulheres trans. São incansáveis as modalidades existentes para colocar mulheres trans em situações vexatórias, degradantes e humilhantes. Nestes programas, nota-se que o humor está atrelado à “revelação” da identida- de das atrizes, sempre utilizando-se do estereótipo de beleza branco ocidental para “confundir” as “vítimas”. O racis- mo aqui é velado, ao atribuir somente às mulheres brancas noções atreladas ao desejo e à atração (mas, qual mulher negra gostaria de ser colocada nessa si- tuação vexatória, não é mesmo?) Em novelas, filmes e peças de teatro também são utilizados estereótipos relacionados ao exagero e à hipersexualização para retratar personsagens trans a partir do transfake.
Isso cria uma noção distorcida de que mulheres trans seriam homens tra- vestidos de mulher. Inclusive, o termo travesti foi totalmente ressignificado. Primeiramente usado durante a colo- nização para criminalizar a existência de travestis traficadas de África para o
Brasil, jesuítas proibiram que homens se vestissem de mulher, dai a ideia de travestismo e assim ficaram conhecidas as pessoas que transgrediam as normas de gênero: travestis [9]. Termo ressigni- ficado e hoje politicamente reivindicado como pertencente ao gênero feminino enquanto identidade. A luta contra o transfake ganhou força na última década graças a luta dos movimentos sociais e a propagação das informações via redes sociais. Ainda assim, houve resistência, ao argumentarem que não existem pes- soas trans qualificadas para os papeis, explicitamente uma justificativa trans- fóbica através de microagressão (apro- fundado mais adiante) dirigida a este segmento da população [8].
Os programas televisivos e demais programas veiculados online, propagam uma representação social daquilo que é considerado verdadeiro e falso em ter- mos de identidade de gênero. As mulhe- res cis são colocadas enquanto verda- de sobre o ser mulher, ao passo que as mulheres trans e travestis são colocadas na categoria do falso, da fraude. Além disso, mulheres trans são sempre hiper sexualizadas e seus traços fenotípicos e sociais são exagerados. Seja por meio dos programas, novelas, filmes e mi- nisséries com intuito recreativos ou por meio da divulgação nos boletins infor- mativos do nome de registro de travestis e mulheres trans assassinadas. Quando a travesti é negra, tende a aparecer 8x mais
na mídia enquanto criminosa ou prosti- tua assassinada, ao passo que travestis brancas são comumente representadas como mulheres trans no entretenimento. O que denota o lugar da travesti branca e da negra ao mesmo tempo que reforça o entendimento higienista do termo trans.
RACISMO, RACIALIZAÇÃO, TRANSFOBIA E AS MICROAGRESSÕES
O racismo pode ser compreendido como a hierarquização de um grupo de pessoas brancas sobre grupos de pessoas negras através de séculos de opressão. A racialização é usada para classificar o modo pelo qual sentidos culturais são atrelados a determinadas característi- cas físicas para que um grupo seja vis- to como diferente, em termos raciais. No contexto pós colonial, a dominação branca ocidental precisava justificar não apenas as atrocidades dos séculos ante- riores, como também precisava justificar a continuidade da inferioridade dos ne- gros na nova ordem mundial capitalista. O uso da ciência, da política e da cultura foram fundamentais para esse processo [3].
A racialização é a maneira través da qual são construídos significados aos corpos pretos, atribuindo-lhes diferen- ciação a partir dos atributos fenotípicos, com objetivo específico: marcar as re-
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presentações sobre poder na sociedade. Existe um sistema que atribui sentidos aos traços fenotípicos de alguém para que a dominação de um grupo sobre o outro possa ser legitimada:
“Assim, devemos entender a raça como projetos de dominação, base- ados na hierarquização entre grupos com características físicas distintas. Ao se construir minorias raciais como grupos com traços morais específicos, membros do grupo racial dominante podem justificar um sistema de domi- nação que procura garantir a perma- nência de oportunidades sociais em suas mãos” (MOREIRA, 2019 página 41).
Neste sentido a branquitude consti- tui-se historicamente como hegemônica, ou seja, sua cultura, religião, sistema econômico, sexualidade, traços estéti- cos, estrutura política e a tradição cul- tural se tornaram parâmetros universais. Isso aconteceu e acontece até hoje por causa da inferiorização da negritude em todos os aspectos supracitados. Quando digo universais, isso significa que a bran- quitude é alocada como representação máxima do que é considerado humano belo, moralmente aceito e sexualmente saudável, o que situa as pessoas brancas num lugar específico dentro das hierar- quias sociais em função do significa- do que pertencer ao grupo dominante possui no mundo contemporâneo. Este
sistema de dominação permite que as oportunidades sociais estejam voltadas aos brancos.
A construção dessa hegemonia pas- sa obrigatoriamente pela deslegitimação e inferiorização das pessoas negras atra- vés da produção de diversas narrativas científicas, políticas e culturais destina- das a legitimar a exploração econômica de pessoas classificadas como negras. Então, o racismo é o centro norteador de práticas de atribuição da imagem cul- tural inferior dos negros para justificar a superioridade branca. Dessa forma a construção das identidades oposicionais racializam grupos sociais de formas dis- tintas em função das relações de poder que pode ser exercidas nas dimensões culturais, políticas e econômicas histo- ricamente construídas.
Neste sentido, a aversão diz respei- to aquelas pessoas explicitamente pre- conceituosas: racistas e transfóbicas, as quais não se relacionam e evitam estar próximas de pessoas negras e trans. No plano simbólico pessoas racistas e trans- fóbicas tendem a desvalorizar aspectos culturais relacionados às pessoas pretas e trans, não consumindo sua arte, a me- nos que seja para fazê-las rir. No plano institucional, atos praticados por repre- sentantes de instituições públicas e pri- vadas, implícita ou explicitamente, po- dem prejudicar os grupos historicamente marginalizados. Por exemplo, quando o
presidente da república nega a existência do racismo, quando casas legislativas criaram leis contra trans nos esportes e contra o uso de banheiros públicos[3].
O psiquiatra norte americano Ches- ter Pierce classificou as microagressões como uma faceta do racismo na criação de imagens deturpadas de pessoas ne- gras o que consequentemente gera “com- portamentos conscientes e inconscientes que expressam de maneira sutil despre- zo por minoriais sociais” (MOREIRA, 2019 página 52). Essas microagressões são expressam em três tipos principais: microassaltos, microinsultos e microin- validações.
Os microassaltos dizem respeito aos atos que expressam desprezo ou agressi- vidade de uma pessoa em relação a outra por causa de seu pertencimento social. Essas expressões podem ser verbaliza- das ou por meio de comportamentos que denotem diferença de valor entre as pes- soas, geralmente propositais através da expressão de estereótipos negativos em relação ao outro. Trata-se do cotidiano, quando não se é cordial com pessoas de determinados grupos sociais, evita-se estar próxima delas e dispensam a pes- soa de estar no mesmo grupo. Exemplos supracitados são o blackface e o trans- fake no sentido de que pessoas pretas e trans são profissionalmente excluídas dos processos de criação e veiculação
do entretenimento, mesmo que o tema dos trabalhos sejam suas próprias vidas.
Os microinsultos dizem respeito ao modo com a comunicação exerce a expressão ou “encoberta ausência de sensibilidade à experiência à tradição ou à identidade cultural de uma pessoa ou grupo de pessoas” (MOREIRA, 2019 página 53). Exemplo disso são mulheres que odeiam ser comparadas às travestis ou que são ridicularizadas por se pare- cerem com travestis, uso de estereótipos femininos para se “fantasiar de traves- ti”, debochar de cabelos crespos, traços negros fenotípicos e traços fenotípicos de mulheres trans, como ombros largos, ausência de quadris, entre outras formas de microinsultos. Até mesmo quando historicamente dizem que não existimos ou que somos uma fraude. Há quem diga que a transexualidade nunca existiu em África e em outros continente e que isso seria uma invenção moderna, quando na verdade, enquanto seres humanos, estamos neste planeta há milênios.
Por fim, as microinvalidações acon- tecem quando as experiências, pensa- mentos e interesses de pessoas de grupos sociais marginalizados são caracteriza- dos como irrelevantes pelas pessoas per- tencentes aos grupos sociais e raciais dominantes. Muito comum são os casos onde pessoas negras, homossexuais, tra- vestis e mulheres contam experiências de discriminação, mas são invalidadas
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com expressões do tipo “não é bem assim”, “você exagerou”, “isso não é preconceito” ou não são sequer somos ouvidas.
CONCLUSÃO
Diante do exposto, o racismo e a transfobia podem ser compreendidos através das formas sutis como são ex- pressadas na sociedade, através das mi- croagressões, instituídas como formas sutis de demarcação do lugar social que pode ser ocupado por estes segmentos da população. Os microassaltos roubam nossos trabalhos, as microinvalidações perpetuam o epistemicídio e depreciam nossa intelectualidade, as microinvalida- ções desumanizam nossas experiências de vida.
Enquanto crime, expressões racis- tas explícitas tendem a gerar incômodo nas pessoas, no entanto as microagres- sões tendem a ser comum, porque de forma implícita expressa-se determina- do sentimento de superioridade de um grupo social para com outro [3], seja de pessoas brancas para com pessoas pretas, heterossexuais para com homos- sexuais, pessoas cisgênero contra pes- soas transgênero e outras formas duais de construção das diferenças, as quais podem estar intercruzadas, o que coloca travestis negras enquanto grupos atingi- dos por múltiplas microagressões.
A análise da transfobia recreativa no Brasil demonstra que muitos igno- ram a existência desta prática social en- quanto crime contra a vida de travestis, transexuais e demais pessoas trans. Al- guns compreendem a transfobia recre- ativa enquanto humor e reagir contra isso seria exagero (microinvalidação). A transfobia recreativa reforça a ideia de que comportamos imorais relacionados a enganação, criminalidade, prostituição e hiper sexualização estariam inscritos nos traços travestis e mais ainda nas traves- tis negras, na sua qualidade biológica, portanto imutável. Isso automaticamente inscreve uma relação direta entre carac- terísticas fenotípicas e a qualidade moral das pessoas trans e negras. Quando uma de nós reage à transfobia somos lidas como violentas e toda a comunidade é estigmatizada. É violento quem inaugura a violência, como diria Paulo Freire, não quem reage a este ato incitado por ou- trem. Recentemente o judiciário brasilei- ro passou a enquadrar a transfobia como crime de racismo, o que por vezes pode ser visto como injúria racial, ou seja, um ato de natureza pejorativa individual e pontual dirigido a uma pessoa trans por meio de palavras e gestos que levem ao dano moral. Transfobias simbólicas e institucionais ainda estão longe de serem vistas como uma ameaça à cidadania e à democracia.
São inúmeras maneiras de conside- rar o significa da transfobia, ainda mais
num país cujo legislativo sequer esta- beleceu legislação sobre o tema, apro- ximando-a apenas de um crime já exis- tente, como mais uma gambiarra jurídica sobre a vida das pessoas trans no geral, através de ações diretas de inconstitucio- nalidades do Supremo Tribunal Federal. A transfobia é institucional.
Segundos os dossiês elaborados pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais — ANTRA (2017, 2018, 2019, 2020) mais de 90% dos assassi- natos de pessoas trans não são solucio- nados e quando são registrados casos de violência a maioria é arquivada. A grande maioria das pessoas trans não concluíram o ensino fundamental, prin- cipalmente negras e pobres. 13 anos é a idade média com que são expulsas de casa, o que as coloca numa situação de extrema vulnerabilidade, onde 90% acaba cooptada pelas redes de tráfico de pessoas, exploração sexual e uso de dro- gas. Após duas décadas de depreciação de sua saúde mental e marginalização de suas vidas, 35 anos é a média de vida dessas pessoas, sobretudo travestis ne- gras e pobres. O padrão de feminilidade vigente ainda fazem que elas recorrem a procedimentos estéticos insalubres, como uso de silicone industrial.
Para além destas estatísticas terri- veis, este texto teve como objetivo ques- tionar quais são as formas com que pes- soas cisgênero reproduzem a exclusão
social das mulheres trans? E qual a rela- ção entre o lugar social destas mulheres e as piadas, chacotas, humor televisivo com uso da imagem de travestis, consu- midos cotidianamente? Você mulher, em qual mulher você se reconhece? Quais são seus parâmetros de humanidade, be- leza, moral, ética? Você se reconhece no corpo de uma travesti?
REFERÊNCIAS
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[2] ANTRA — Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Dossiês e Mapas dos Assassinatos de Travestis e Transexuais. 2017. Disponível em: <https://antrabrasil.org/assassinatos/> Acessado em 01/02/2021.
2018. Disponível em: <https://antrabrasil.org/assassinatos/> Acessado em 01/02/2021.
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[3] MOREIRA, Adilson. Racismo Recreativo. São Paulo: Sueli Careiro; polén, 2019. 232. Feminismos Plurais.
[4] Manifesto do Coletivo Combahee River. Traduzido por Stefania Pereira e Letícia Simões Gomes. PLURAL, Revista do Programa de Pós- Graduação em Sociologia da USP, São Paulo, v.26.1, 2019, p.197-207.
[5] CRENSHAW, Kimberlé. Tradução: mapeando as margens: interseccionalidade, políticas identitárias e violência contra mulheres de cor. In: Martins, A.C. ; VERAS, E.F. Corpos em aliança: diálogos interpretativos sobre gênero, raça e sexualidade. Curitiba: Appris, 2020.
[6] BENTO, Maria Aparecida Silva. Pactos narcísicos no racismo: branquitude e poder nas organizações empresariais e no poder público. São Paulo, 2002 169p. Tese (doutorado) Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.
[7] RIBEIRO, Djamila. “Mulher negra não é fantasia de carnaval?. Carta Capital, 2015. Disponível em <https://www.geledes.org.br/mulher-negra-nao-e- fantasia-de-carnaval/>. Acesado em 08/01/2021.
[8] FAVERO & MARRACI, 2018. Transfake e a busca pela verdade na representação de travestis e pessoas trans. Revista brasileira de estudos da homocultura. Vol. 01, N. 04, Out. - Dez., 2018. Disponível em: <www.revistas.unilab.edu.br/index. php/rebeh> Acessado em 08/01/2021.
[9] MOTT, Luiz. Homossexualidade no Atlântico Lusófono Negro”. Revista Afro-Ásia, no. 33 (2005): 9-33, acesso em <http://www.afroasia.ufba.br/pdf/afroasia33 . pp9 33 Mott.pdf.>
“Raízes Históricas da
Elisha Silva de Jesus, paulistana, 26 anos. Licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de São Carlos - UFS- Car, campus Sorocaba e atual mestranda em Educação, Comunidades e Movimen- tos sociais no Programa de Pós Graduação em Educação - PPGEd, na mesma Univer- sidade. Sou pesquisadora no Núcleo de Estudos em Gênero, Diferenças e Sexua- lidades - NEGDS dessa mesma instituição e faço parte dos projetos de extensão: Fe- minismos, Sexualidade e Política - FSex- Pol; Combate à Pandemia: fabricação de álcool em gel para distribuição gratuita em hospitais e do grupo Mulheres e Luta. Na sociedade civil sou tesoureira na Associa- ção Transgênero de Sorocaba e sou con- selheira suplente no Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres em Sorocaba. Estudo Educação, Direito ao Nome Social nas Escolas, Biologia, História e Memória de Mulheres Trans/Travestis Negras Bra- sileiras.
SAUDADE
Yvonne Miller
Dá pra ter saudade de alguém que você não conhece?
Não sou especialista em saudade, até porque na minha língua materna esse conceito não existe. Temos, isso sim, palavras com significados parecidos: Heimweh (saudade da terra natal ou de casa), Fernweh (saudade de estar longe, de viajar, de conhecer lugares novos), Sehnsucht (desejo doloroso de algo ou alguém).
Eu nunca tive Heimweh, sempre tive Fernweh e vivia cheia de Sehnsucht da Larissa quando namorávamos a distân- cia. Mas saudade, saudade mesmo, no verdadeiro e brasileiro sentido da pala- vra, eu não sabia sentir. Aprendi isso há três anos. Faz três anos que uma saudade pontiaguda invadiu meu corpo e alma e nunca mais me abandonou.
Logo eu, que sou difícil de lágrimas, chorei feito criança quando ouvi a noti- cia. Era 15 de março de 2018, um dia de-
pois, eu estava tomando o café da manhã e ouvindo a Rádio Universitária e aí eu soube. Da Marielle. Do assassinato. Da sua família. Da dor. Da saudade. Saudade dela, deles, minha. Soube também, com o impacto que a dor e as lágrimas rom- peram minha paz, que a saudade nunca mais iria embora. Naquela manhã há três anos, eu não conseguia parar de chorar e choro até hoje nos dias 14 (e às vezes também nos outros). Quantos já passa- ram? 36 dias 14. 36 meses sem Marielle, 156 semanas, 1095 dias. Três anos.
Sim, dá pra ter saudade de alguém que você não conhece, do mesmo jeito que dá pra sonhar com um mundo di- ferente. Um mundo em que o amor, o respeito e a justiça social terão vencido o ódio, a intolerância e a desigualdade. Marielle lutava por esse mundo, com- partilhava esse sonho.
Minha saudade dela é o luto do so- nho-mais-bonito interrompido.
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Mas não se engane: Marielle não andava só. Eu também não estou só com minha saudade, ela é coletiva. Coletiva como o sonho de um mundo melhor, coletiva como a luta por justiça, coletiva como a primavera. Coletiva como Ma- rielle. Não vão nos calar. Avante!
Yvonne Miller nasceu na cidade de Berlim em 1985, mas mora, namora e se demora no Nordeste do Brasil desde 2017. Escreve contos, crônicas e literatura infantil em alemão, espanhol e português. Tem textos publicados em coletâneas, como Paginário (Aliás Editora) e Histórias de uma quarentena (Expresso Poema Editora). É cronista do coletivo sócio-literário (Dbora cronicar e do blog Escritor Brasileiro. Além de ficcionista é autora e redatora de livros escolares. Instagram: (Dyvonnemiller escritora
preta lésbica = papo reto, sorriso no ", rosto, Marielle presente! E pra seinspirar , se |-mexêr / pra não esquecer
Mulher eirante , | mulherão
cercada de Rá 0º prédios em filos tudo
acon str
Fonte: https://ctb.org.br/
4 UNFESFNIA
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* Conceição Evaristo, no livro Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizon-
te: Nandyala, 2008
Eu fêmea-matriz. Eu força-motriz. Eu-mulher
abrigo da semente moto-contínuo
do mundo.”
ANIS FAIR O EN SONHO CIPVV=ENOO
BESLOCAMENTOS
IMAGINÁRIOS, 2020 MONTEVIDÉU, SRUGUAI
Camila Fontenele
Visito o mar anualmente, como quem retorna para casa depois de uma lon- ga viagem, como quem promete pra si próprio não se perder em terra firme. Um compromisso firmado para me lembrar daquilo que não lembro que fui, de um corpo-baleia, das minhas memórias que tem gosto de sal.
Camila Fontenele, 1990, São Paulo. É artista visual, pesqui- sadora e, atualmente, assistente de curadoria da 3º edição de Frestas — Trienal de Artes “O rio é uma serpente” (2020/2021). Radicada na cidade de Sorocaba, mestranda no programa in- terdisciplinar de Estudos da Condição Humana na UFSCar e pós-graduada em Cinema, Vídeo e T'V: estética da imagem em movimento no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Suas investigações são atravessadas por questões como per- tencimento, o corpo gordo atrelado à imagem da baleia como fonte de cura e a possibilidade na criação de fugas e novas paisagens através dos processos de desaparição/aparição. Mais informações: www.camilafontenele.com e (Ig) (Dcamisfontenele
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Julia Dbupim
Julia Pupim, 25 anos, nascida no interior de São Paulo. Cozinheira, uso a fotografia para externalizar minhas inquietações. Trabalho apenas com fotografia analógica, gos- to das experimentações que ela me proporciona e participo de todo o processo; revelo e digitalizo minhas fotos em casa, usando tecnicas alternativas. As fotos publicadas aqui fazem parte de um projeto, uma zine fotográfia chamada “Morro e não posso ve- lar o meu corpo”, onde conto um pouco sobre meu luto e a trajetória de adoecimento e morte de minha mãe. (Dn.anojnk
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PARTICIPARAM DESTA EDIÇÃO
Capa
Águeda Amaral, fotógrafa, diretora e fundadora da Cabelo Duro Produções. Dirigiu: Na Cena do Samba - Noel Rosa, 2010, finalista na premiação da Revista BRAVO, Apuê, 2011 (Curta) na AIC - Academia Internacional de Cinema, Maria Maria, 2011 (Curta Metragem) — premiado em edital da TV Câmara e Música na Alma, 2013 -2014, sobre a música de rua Cubana, com filmagens em Cuba e São Paulo. É co-produtora do longa, Hestórias da Psicanálise — Leitores de Freud, Dir. Francisco Capoulade, 2015, No Gargalo
do Samba, 2017 - lançado na Rede EBC /'TV Brasil e em mais 16 países da América Latina Atualmente é co-produtora do documentário A Descoberta do Mundo, um filme sobre Clarice Lispector, dirigido por Taciana Oliveira. É produtora executiva da FILAFRO - Filarmônica Afro Brasileira em Espetáculos Nacionais e Internacionais. Site: www.cabeloduroproducoes. com
Ilustrações
Sofia Nabuco, 20 anos é ilustradora. Nasceu em São Paulo, mas “* mora na capital mineira há sete anos. Tem ilustrações publicadas m em revistas como OuroCanibal e Laudelinas. Em seu Instagram: (&) = * rabiscofia, posta ilustrações diárias e divulga seus outros trabalhos.
Editoração
Taciana Oliveira - Comunicóloga, roteirista atua em direção e produção cinematográfica, coordena e publica na plataforma di- gital Mirada — www.miradajanela.com . Dirigiu “A Descoberta do Mundo”, um documentário sobre Clarice Lispector. Tem no prelo Coisa Perdida, livro de poemas.
Design Editorial
Rebeca Gadelha é Otaku, Gamer, Artista Digital e Geógrafa. Tem um fraco por criaturinhas peludas e chá gelado. Participa da Plataforma Mirada como Designer Gráfico e curadora. Atualmente trabalha com edição de vídeo do projeto Literatura & LIBRAS (instagram (Dliteraturalibras), escreve no Medium sob o pseudônimo de Jaded. É autora de Reminiscências (Selo Mirada, 2020), livro de memórias. IG: ()ohmybecka
MIRADA